TeleSol já é sucesso em Alcobaça, na Bahia
Aos 41 anos Antônio Soares Santos começou a freqüentar uma sala de aula. Exemplo para muitos de sua comunidade e motivo de orgulho para a mãe, em 2009, com 43 anos de idade está pronto para dar continuidade ao primeiro segmento da Educação de Jovens e Adultos.
As mudanças que o ensino trouxe para sua vida não cabem em palavras. "Sou um novo homem, não sei nem como dizer", reflete. Os benefícios vão desde a elevação da auto-estima, o resgate da dignidade e até financeiros, como o aumento da produtividade e, consequentemente, de sua renda mensal.
Nascido em São José, distrito do município de Alcobaça, na Bahia, Antônio é mais um dos milhares de brasileiros que não tiveram oportunidade de estudar quando criança, dispensando o tempo para auxiliar no sustento da casa.
O tempo foi passando, as necessidades aumentando e Antônio não pôde se dedicar aos estudos. Solteiro, com uma filha de sete anos de idade para criar, trabalhou grande parte de sua vida como motosserrista, profissão que o levava para diversos estados do país e exigia muito de seu tempo.
"Nunca tive tempo para estudar, acordava muito cedo e voltava para casa tarde. Não tinha disposição", revela. Ele conta que certa vez matriculou-se na escola, no entanto, a exaustão o impossibilitou de prosseguir. "O trabalho era muito cansativo, eu não tinha ânimo", justifica.
Uma das maiores dificuldades enfrentadas por Antônio era a dependência de terceiros para ler, principalmente quando era enviado para outras cidades a trabalho. "Eu viajava muito e quando não dava para ir com outros funcionários, tinha que pedir ajuda para as pessoas que estavam na rodoviária. Sempre viajava com um bilhete com o endereço do local", conta. "Eu não fazia nada sozinho, no banco, sempre tinha que pedir ajuda para fazer saque, depósito ou qualquer outra coisa", completa.
Mas em 2006, o curso de alfabetização promovido em parceria da AlfaSol e do Instituto Unibanco, no município de Alcobaça, mudou essa realidade. Trabalhando por conta própria como agricultor há cinco anos, Antônio encontrou tempo disponível e realizou o desejo de frequentar uma sala de aula.
Ele explica que a vontade de estudar aumentou com a preocupação em acompanhar a evolução tecnológica. "Hoje está tudo evoluindo muito rápido, a gente não pode ficar parado. Para tudo tem que saber ler e escrever. Para ir ao banco, ao médico, para pegar ônibus e até para entender as notícias do jornal", esclarece.
O anseio pelos estudos o levou à sala da alfabetizadora Tânia Maria Gomes de Jesus Neres. "Foi uma experiência muito legal, aprendi muitas coisas boas que eu não sabia", conta. Em pouco tempo, o agricultor já alcançou diversas conquistas: "eu não preciso mais pedir ajuda para saber qual carimbo devo utilizar, para preencher fichas, notas, conferir depósitos", expõe satisfeito. Antônio, que era alcoólatra, deixou o vício e hoje tem uma plantação de 500 pés de maracujá e 2500 pés de pimenta. Exporta para o Ceasa, em São Paulo, e emprega, conforme a colheita, alguns funcionários. Ele faz questão de incentivá-los. "Fico no pé deles para que estudem para ser alguém na vida", conta.
A realização do sonho de saber ler e escrever possibilitou outros, ainda maiores. Antônio finalmente conseguiu sua Carteira Nacional de Habilitação. "Eu já tinha a prática, mas não sabia ler nem escrever, não tinha condições de fazer o teste". O agricultor sente-se muito orgulhoso em alcançar esta conquista. "Tinha gente que já estava no colegial e não passou".
Habilitado, espera ansioso o momento de poder comprar um carro para aumentar ainda mais seus negócios. O desafio para o futuro? Aprender computação e prosseguir nos estudos. Junto com outros moradores da região, Antônio se beneficia do programa TeleSol, viabilizado pela parceria entre a AlfaSol e o Instituto Unibanco.
(Fev/2009)
Segunda etapa do programa de alfabetização gera frutos em Brazlândia
Fazer com que se entenda a importância dos estudos na vida pessoal e profissional de um adulto nem sempre é tarefa fácil, principalmente quando se trata de moradores de comunidades mais vulneráveis, nas quais as oportunidades de crescimento parecem ser menores. No entanto, mesmo com todas as dificuldades, há quem se esforce para aumentar as chances de desenvolvimento na vida de dezenas de cidadãos.
É o caso da coordenadora de grupo de Brazlândia, cidade-satélite do Distrito Federal, a 45 quilômetros do Plano Piloto. Há dois anos, Márcia Helena Ramos incentiva alfabetizadores e alunos a darem continuidade nas aulas do Projeto abcDF (parceria entre o Governo do Distrito Federal e a Alfabetização Solidária).
Márcia conta que o maior desafio foi encontrar formas atrativas de aproximar os alunos, fazendo com que todos compreendessem a importância das aulas. "Eles não entendem que a continuidade dos estudos depende exclusivamente deles". Para alcançar essa aproximação ela, juntamente com os alfabetizadores, organizou palestras, convidou especialistas para discutir assuntos que fazem parte do cotidiano dos alunos e promoveu encontros com alunos e com alfabetizadores.
"Dentre os eventos, tivemos palestras com um médico, que falou sobre alimentação alternativa, com um professor de Educação Física, que explicou os benefícios do alongamento. A turma também foi convidada para participar de um encontro espiritual e do jantar surpresa, que preparamos especialmente para o Natal", conta Márcia orgulhosa de seu trabalho.
A coordenadora faz questão de conhecer todos os alunos pessoalmente. Além de visitar as salas de aula, percorre as casa dos alfabetizandos, explicando a importância do processo de alfabetização para um futuro melhor.
Juntas, procuram levar para cada residência esperança e força de vontade para continuação dos estudos. Márcia explica que alguns alunos pensam em desistir das aulas, não necessariamente por falta de vontade, mas às vezes por cansaço ou até mesmo doença. "Às vezes, por falta de condução, falam em deixar os estudos. Mas nós insistimos e, se necessário, ajudamos", completa.
"Meu objetivo é que cada vez mais alunos passem pela alfabetização e frequentem a Educação de Jovens e Adultos (EJA), meu desejo é aumentar o número de alunos nas salas de aula", revela. Dos alunos que participaram da 2ª etapa do programa, oito já foram encaminhados para a EJA. Márcia explica que ninguém melhor do que o próprio aluno para fazer a publicidade do programa de alfabetização.
No entanto, foi por meio dessa busca de alunos, batendo de casa em casa, que Márcia apresentou o curso de alfabetização para o montador de automóvel Lauzimar Fernandes de Deus, de 35 anos.
Natural de Pirenópolis, Goiás, Lauzimar frequentou até a 4ª série do ensino fundamental, ainda quando pequeno: "tive que parar de estudar muito cedo, pois precisava ajudar meus pais na roça", lembra.
Há 16 anos, mudou-se para Brasília em busca de oportunidades melhores. Com a correria do dia-a-dia não conseguiu tempo para estudar. O receio de não encontrar vaga nas escolas também o impediu de persistir nos estudos.
Casado, com um filho de 11 anos, Lauzimar não hesitou em participar da 2ª etapa do programa de alfabetização, quando foi convidado pela coordenadora Márcia. "Preferi começar do zero, pois fazia muito tempo que eu não estudava, não lembrava mais nada do que aprendi quando criança". Acompanhar os avanços tecnológicos, progredir nos estudos e garantir um bom emprego foram alguns dos motivos que o levaram a frequentar a sala de aula.
Depois de terminar o curso promovido em parceria com a AlfaSol, no segundo semestre de 2008 deu início às aulas na EJA. Encaminhado para a 3ª série do ensino fundamental, o montador de automóvel orgulha-se de ser um exemplo para seu filho. "Hoje leio jornal com ele, discutimos diversos assuntos em casa. Além disso, converso melhor com meus clientes", revela sobre alguns dos benefícios que encontrou a partir dos estudos.
Com muita expectativa pela frente e algum tempo para completar os estudos, Lauzimar sonha em terminar o ensino médio e passar em um concurso público. "Os professores nos incentivam bastante". Para quem acha que o esforço é grande, ele deixa um recado: "Quem tem um sonho não pode desistir nunca, por maiores que sejam os desafios", finaliza.
(Jan/2009)
Transmitindo o valor da Educação
Não saber ler é como estar diante de um muro que vai até o céu e se fica imaginando o que existe do outro lado. É assim que Neide Maria de Nascimento de Brito, de 43 anos, define a sensação que sentia quando não sabia ler e escrever. Para vencer esse obstáculo em sua vida, ela enfrentou muitas adversidades para finalmente concluir o curso de alfabetização do Projeto abcDF, promovido pelo Governo do Distrito Federal em parceria com a AlfaSol. Seu empenho foi reconhecido e Neide acabou escolhida para ser a oradora da turma, na cerimônia de encerramento que aconteceu no Auditório Professora Doutora Ruth Cardoso, na capital federal.
Sua história começa no Maranhão, no município de Buriti do Meio, onde nasceu em uma família grande, com seis irmãos. Desde pequena, trabalhou na roça, no corte de cana, ajudando os pais. “Não havia escola por perto e a cidade ficava a meio dia de viagem de onde morávamos. O Mobral era só à noite e meus avós não deixavam a gente ir porque era longe e não tínhamos como voltar”, explica Neide, sobre o motivo de não ter estudado quando criança.
Aos 13 anos, veio para Brasília trabalhar como babá. Como dormia no serviço, não podia estudar porque os patrões não deixavam. Suas folgas eram nos finais de semana e ela aproveitava para passear. “Nessas ocasiões, eu saía de casa com o número do ônibus anotado e comparava com as conduções que passavam”, relembra. Apesar das dificuldades, a capital federal deslumbrou a jovem vinda do Maranhão. “Tudo o que eu via era bonito”, conta.
Depois de um tempo, Neide conheceu o marido, José Hélio, e, hoje, ela tem cinco filhos: um com 25, outro de 17, dois com 15 e o último com 5 anos. “Todos estudam. Meu marido estudou até a sétima série”, conta.
Ela trabalhou a vida toda para ajudar o marido com as despesas da casa. Cozinhava, lavava, passava e cuidava de crianças. O analfabetismo criava para ela dificuldades no cotidiano, que ela buscava contornar com a ajuda de outras pessoas. Tinha problemas em verificar as contas de luz e de água e não conseguia ler as cartas que recebia do Maranhão, trazendo notícias de sua mãe, que ela nunca mais viu desde que deixou a cidade para morar em Brasília. “Sempre pedia a alguém para ler para mim e isso me incomodava muito, porque nem sempre queria que outras pessoas soubessem coisas sobre a minha vida”.
Este ano, Neide foi convidada pela alfabetizadora Marli para freqüentar o curso de alfabetização do Projeto abcDF e resolveu participar. “Quando se quer e se tem força de vontade, a gente consegue tudo”, afirma ela. Tudo começou a dar certo, até que a vida lhe deu um grande susto: Neide sofreu um AVC e quase morreu. “Fiquei quinze dias afastada das aulas, perdi parte da visão, mas, assim que me recuperei, voltei aos estudos. Fiz questão de apresentar um atestado médico para a alfabetizadora para justificar minhas ausências e segui em frente para terminar o curso”, diz, ressaltando que contou com o apoio da família durante todo o curso e as dificuldades que surgiram.
Antes da cerimônia de encerramento das aulas, Neide recebeu a visita da alfabetizadora Marli, que pediu para ela ser a oradora da turma. “Foi uma surpresa boa, fiquei bem feliz e, logo no dia seguinte, fomos preparar o discurso que eu iria fazer no dia”, explica, acrescentando que a cerimônia foi marcada de emoção. “A gente pensa que nunca vai acontecer nada de bom na vida, mas acontece!”
Hoje, Neide conta que muita coisa mudou. Ninguém mais precisa ler as cartas que ela recebe, nem as contas de água e luz: ela se vira sozinha. “É maravilhoso olhar para as letras e entender”, conta. De sua experiência de vida, ela aproveita para ensinar aos filhos o valor da Educação. “O estudo é o único bem que a gente tem que ninguém leva. E a tecnologia está engolindo as pessoas. Por isso, precisamos estudar e fazer faculdade . ”, afirma Neide, explicando que entre seus planos está o curso de Teologia. “Quero ser teóloga”, conclui, bastante entusiasmada.
(Dez/2008)
Alfabetização no Mandaqui promove inclusão social dos idosos
Um trabalho que vem dando resultados visíveis e contribuindo efetivamente para promover a inserção social dos idosos. É esta a análise que a coordenadora pedagógica da Faculdade Montessori, Katsue Hamada Zenun, faz do curso de alfabetização promovido em conjunto com a Alfabetização Solidária e a Scitech no Centro de Referência do Idoso (CRI), no Hospital do Mandaqui, na zona norte da capital paulista. "Não havia vivenciado nada parecido antes, que apresentasse resultados tão efetivos em tão pouco tempo", explica.
O grupo atendido pela parceria no CRI tem características peculiares. O aluno mais novo do curso de alfabetização do CRI tem 56 anos e o mais velho, 84. Segundo a coordenadora, muitos têm um histórico de abandono, baixa auto-estima ou enfrentam ainda problemas de saúde. Assim, após uma pesquisa realizada no ano passado, que buscou conhecer melhor o perfil dos alunos matriculados no curso, a Identidade foi escolhida como o eixo norteador para a condução das atividades realizadas durante a alfabetização. Este ano, o trabalho com a Identidade continuou, mas, desta vez, o enfoque voltou-se mais para a Identidade Cultural, onde, segundo Katsue, está alojada a maior parte do preconceito contra os idosos. "Os mais jovens acreditam que os idosos são incapazes de lidar com o novo, com o que é moderno. Por isso, neste ano, entre outras coisas, trabalhamos muito a questão da informática com nossos alunos", explica.
E, para promover a socialização planejada, além das atividades inerentes ao curso de alfabetização, os alunos puderam aproveitar os recursos e espaços disponibilizados pelo Centro de Convivência do CRI. "O objetivo foi permitir que os alunos tivessem momentos de reflexão sobre suas vidas, ampliassem seus conhecimentos e sua percepção do mundo, aumentando em conseqüência sua auto-estima", explica a coordenadora do Centro de Convivência do CRI, Edwiges Trigo Rachid. Assim, ao lado das aulas de alfabetização, os alunos participaram da Semana do Idoso, dos 100 anos da Imigração Japonesa, das sessões de cinema, das oficinas de tricô, crochê e artesanato, e das aulas de informática. "As professoras também aproveitaram as palestras realizadas no CRI para que seus alunos pudessem ter acesso a informações sobre saúde, higiene pessoal, acidentes domésticos, educação no trânsito, medicações, entre outras", informa o coordenador do curso de alfabetização no CRI, Andrey Barrack de Lacerda.
As aulas de informática, realizadas duas vezes por semana, contribuíram para reforçar o aprendizado. "Os alunos aprenderam a ligar e desligar um computador, a acessar a internet e a fazer algumas pesquisas. Claro que o ritmo de aprendizado deles é diferente e mais lento, mas identificamos muitos progressos", conta Andrey.
Um dos alunos atendidos no CRI este ano é o Sr. João do Nascimento, de 80 anos, que nunca havia tido a chance de estudar e agora, mesmo com as dificuldades impostas pela diabetes, que o fez perder uma das pernas, freqüentou as aulas regularmente. "Tomava dois ônibus para ir ao CRI e já cheguei a cair dentro do ônibus e fora dele, mas não desisti. Só deixei de ir às aulas quando a diabetes ou a pressão aumentava", conta. Nascido em Itu, no interior de São Paulo, Sr. João viveu como colono em cafezais até que completou vinte anos, quando veio para a capital do Estado, onde trabalhou como açougueiro até se aposentar. Só agora conseguiu estudar. "O Sr. João é um dos alunos que evoluiu muito em seu aprendizado", informa a professora Sumi Ota Ishara.
Alguns alunos que terminaram o curso em 2007 acabaram retornando ao CRI como monitores da turma deste ano. "A presença dos ex-alunos contribuiu bastante para o aprendizado dos atuais alunos, porque, além de eles darem exemplo aos demais de que é possível aprender, eles levam uma alegria contagiante para a sala de aula", explica a coordenadora Katsue.
Uma dessas ex-alunas é Maria do Carmo Magliano, que atua como monitora na sala da professora Sumi. Como quase todos os alunos, Maria do Carmo trabalhou na roça quando criança e quase não pôde estudar. Mesmo assim, freqüentou a escola até o quarto ano e, após quarenta anos longe dos estudos, decidiu matricular-se no ano passado no curso de alfabetização do CRI. "Queria relembrar o que aprendi no pouco tempo de estudo que tive", conta. Hoje é o braço direito da professora, ajudando com presteza os idosos menos favorecidos. "Para aqueles que não conseguem andar, ela prepara o lanche, o chá ou o suco e os leva até suas carteiras", detalha Sumi, contando que sua "assistente" pretende cursar Magistério e Pedagogia, já que seu maior sonho é ser professora.
O trabalho está trazendo uma repercussão muito positiva para o Hospital do Mandaqui, principalmente pela sensível mudança vivenciada pelos alunos. "O curso representa um resgate na identidade dos idosos e de seu papel social. É bastante evidente a mudança: eles chegaram aqui resistentes e cresceram muito como pessoas", conclui Andrey.
(Dez/2008)
Uma integração entre cultura típica e curso de alfabetização
Valorizar o conhecimento que o aluno traz para a sala de alfabetização facilita não apenas o aprendizado, como permite uma integração entre os alfabetizandos e contribui para sua permanência na sala de aula. Principalmente se esse conhecimento estiver intimamente ligada à cultura da região onde as aulas são realizadas.
Um bom exemplo dessa integração aconteceu em Aracaju, no Estado de Sergipe, onde a Alfabetização Solidária, com o apoio da Universidade Federal de Sergipe (UFS), mantém parceria com o governo do Estado para realizar a capacitação dos alfabetizadores do Programa Sergipe Alfabetizado. A alfabetizadora Maria Célia Santos reuniu todos esses fatores em torno do samba de coco, uma dança regional bastante enraizada no bairro do Mosqueiro, onde as aulas são realizadas. "Aqui no Mosqueiro, o samba de coco é praticado por pessoas de todas as idades", informa ela.
Maria Célia explica que esta dança se parece com o samba tradicional, mas tem um gingado diferente, no qual todo o corpo se movimenta acompanhando o ritmo forte das batidas dos instrumentos que embalam os dançarinos, como o tambor, o reco-reco e o pandeiro, entre outros. A animação é complementada pelas palmas ritmadas dos participantes, que cantam, com alegria, as letras das composições compostas de pequenos versos, fáceis de aprender, que retratam de forma poética o cotidiano dos moradores, o amor e sua relação com a natureza. "A dança é aberta para todos os interessados em participar. Só há uma exigência: no grupo, a pessoa tem que transbordar simpatia e alegria", destaca a alfabetizadora. "Geralmente, nós dançamos o samba de coco nas festas de São João, nos finais de ano ou nas datas festivas locais", conta Maria Célia.
A idéia da alfabetizadora ganhou forma quando decidiu convidar os alfabetizandos para uma apresentação em um dos encontros de capacitação continuada que aconteceram durante o curso de alfabetização na Secretaria de Estado da Educação de Sergipe (SEED). De acordo com a coordenadora pedagógica do Sergipe Alfabetizado, Isis Mota Rodrigues Dantas, além da atualização pedagógica, os encontros objetivavam o desenvolvimento de outras atividades culturais pelos alunos, que eram sugeridas e desenvolvidas pelo próprio grupo de alfabetizandos. A proposta de Maria Célia, que apostou na apresentação do samba de coco, encontrou acolhida entre seus alunos, principalmente por compreender uma ótima forma de divulgar a cultura local.
"Convidei alguns músicos de grupos tradicionais da região para a apresentação dos alunos. A idéia deu certo e acabou envolvendo tanto os alunos que já sabiam, quanto alguns que nunca haviam se aventurado no samba de coco", detalha a alfabetizadora.
Depois dessa primeira apresentação, o grupo levou seu trabalho para as comemorações em torno do Dia Internacional da Alfabetização, promovida pela SEED em setembro, ocasião em que o grupo de Maria Célia realizou um cortejo do samba de coco em pleno corredor da Secretaria Estadual de Educação. O entusiasmo dos integrantes contagiou até o secretário, José Fernandes de Lima, que prestigiou a manifestação cultural dos alunos. "Depois que os alfabetizandos dançaram, alguns deles recitaram versos que eles mesmos criaram para esta dança", conta a coordenadora pedagógica Isis.
Aprovação dos alunos - Uma das alunas que participaram da apresentação é Mariete Rodrigues Santos, de 44 anos. Nascida em Aracaju, ela conta que já conhecia o samba de coco. "É uma tradição que vem de berço e eu sempre acompanhei e participei, principalmente nas festas de São João", explica. Mariete não teve oportunidade de estudar na infância - seus pais tiveram seis filhos e todos ajudavam no trabalho na roça. A ausência de leitura e escrita dificultaram muito a sua vida. "Tinha vontade de estudar, mas não pude", lembra. Trabalhando como diarista, Mariete conta que enfrentava dificuldades no dia a dia até para selecionar um produto de limpeza. "Sempre acabava me confundindo e trocando um pelo outro", diz. Também não conseguia atender o telefone e anotar recados e, muitas vezes, ao voltar para casa, acabou entrando no ônibus errado e indo parar em outro bairro, bem distante do seu. "Eu conhecia a letra M e buscava identificar o ônibus por meio dessa letra, porque moro no Mosqueiro. No entanto, às vezes acabava entrando no ônibus que ia para Maracaju", explica. Hoje, após freqüentar as aulas da alfabetizadora Maria Célia, muitas dessas dificuldades acabaram. "Já consigo ler bem, principalmente a Bíblia, e até anotar recados nas casas onde trabalho", conta. Como o curso de alfabetização termina neste final de ano, Mariete já está providenciando uma escola onde dará prosseguimento a Educação de Jovens e Adultos (EJA). "O samba de coco me deu ainda mais entusiasmo para prosseguir com os estudos", conta.
A opinião da SEED - O trabalho desenvolvido pela alfabetizadora Maria Célia obteve pronta aprovação da Secretaria de Educação do Estado de Sergipe. "Entendemos que essa integração cultural, que aconteceu no decorrer das aulas, contribuiu para elevar a auto-estima dos alunos, além de ser uma atividade que pode se estender para além do curso de alfabetização", conta a coordenadora Isis. Desta forma, a SEED está convidando os alunos para realizarem novas apresentações, incentivando, assim, a continuidade do grupo de samba de coco da alfabetizadora Maria Célia. A próxima, inclusive, já está marcada: eles farão uma apresentação na cerimônia de encerramento do curso de alfabetização do Sergipe Alfabetizado, programada para acontecer no próximo dia 11 de dezembro, no Complexo Cultural Gonzagão.
(Nov/2008)
Nunca é tarde para aprender
As mudanças sempre foram constantes na vida do Sr. José Miguel Sobrinho, de 58 anos, principalmente em sua infância. Isso porque seu pai, patriarca de uma família com quatro filhos, trabalhava na roça e sempre mudava de cidade em busca de trabalho. “Eu me lembro que nas primeiras cidades nas quais moramos ficamos por uns períodos mais longos, mas depois as transferências passaram a ser ano a ano. Ao todo, foram 18 cidades”, recorda. José nasceu em Alexandria, no Rio Grande do Norte, mas – como é fácil imaginar - logo mudou-se para Santa Cruz, na Paraíba, município do qual mais se recorda. Aqui permaneceu por seis anos, um de seus maiores períodos morando em uma única cidade.
Em conseqüência, ficar na escola tornou-se uma loteria: ele estudava um pouco e, quando percebia, já estava em outra cidade e os estudos, claro, eram constantemente interrompidos. Até que ele e os irmãos desistiram de estudar e foram ajudar o pai no trabalho na lavoura. “Eu lembro que meu pai até gostou, principalmente por ganhar ajudantes para o sustento da casa”, conta. A família trabalhava no cultivo de algodão, milho, feijão e qualquer outra cultura que ofereciam para eles.
Aos 18 anos, José estava ainda morando com a família em Souza, na Bahia, mas acabou arrumando um emprego de pedreiro. Passou a morar sozinho e, aos 22 anos, casou-se. Teve dois filhos e depois de 10 anos juntos, o casal se separou. Ele ficou por seis anos sozinho até que conheceu Francisca e um novo casamento aconteceu na vida de José. Desse novo relacionamento, ele teve uma filha, que hoje tem 13 anos.
Como ele mesmo gosta de afirmar, José herdou do pai o gosto pelas mudanças. Já morou em Cajazeiras, Souza e Paulo Afonso, municípios baianos, além de Brasília e São Paulo. Nesses lugares, exerceu o ofício de pedreiro. Em uma dessas andanças, quando estava indo para Paulo Afonso, passou por Milagres, no Ceará, e se encantou. “Quando terminei o trabalho, decidi me estabelecer na cidade”, afirma ele, que já está em Milagres há quatro anos – um verdadeiro recorde para ele!
E foi aqui que ele se reencontrou com os estudos. “Toda a vida, eu quis estudar, porque eu sei não dá para conseguir nada sem estudo”, conta, acrescentando que, devido à sua idade, acreditava que não adiantava mais ir à escola. Mas ele foi convidado por uma conhecida e acabou aceitando. “Eu estou aposentado por invalidez e o convite surgiu em um bom momento”, conta.
O curso de alfabetização permitiu a ele vencer muitas dificuldades que enfrentou a vida toda pela falta de estudo. “Eu era como um cego, porque, apesar de ver, eu não enxergava”, explica. José recorda que perdeu muitos empregos, porque, quando participava de um processo seletivo, lhe davam uma ficha para preencher – mas, como não sabia ler e escrever, acabava sendo selecionado para trabalhos braçais, como pedreiro. Agora, José lê jornais e a Bíblia e consegue identificar o itinerário dos ônibus, sem precisar perguntar a ninguém.
Juntamente com a alfabetização, José conseguiu outra ótima oportunidade: participou do Projeto de Alfabetização Digital, implantado no município com o apoio da Chevron, detentora da marca Texaco, e da prefeitura de Milagres, que cederam computadores para uso dos alunos do curso de alfabetização. “Aprendi a ligar e desligar um computador, escrever mensagens, recados... Foi muito bom”, lembra.
E o futuro? José está dando prosseguimento aos estudos. Hoje, ele está cursando a Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Dizem que papagaio velho não aprende, mas nós não somos papagaio, não é mesmo?”, brinca. Ele mesmo faz uma auto-análise e afirma que, entre os avanços obtidos, está uma sensível melhora de sua letra. A EJA também permite a José continuar a ter contatos freqüentes com o computador e, assim, ele aprende novos comandos.
Ele manda um recado para aqueles que estão em dúvida se devem voltar a estudar ou não: “Vi muita gente que não sabia nada, aprender muito. Tudo o que é progresso na vida é bom. Por isso, não se deve desistir nunca”, enfatiza, acrescentando que valeu a pena o sacrifício!
(Out/2008)
Recuperando o tempo perdido
O início da vida escolar de Maria Rosenilda da Silva, de 27 anos, quando criança, não foi nada do que deveria ser: acolhedor, instrutivo e estimulante. Pelo contrário. Nascida em João Pessoa, na Paraíba, Maria Rosenilda chegou a freqüentar a escola, mas não foi nada fácil. Aliado à falta de materiais escolares - sua mãe não tinha condições de comprar o necessário para os quatro filhos, o que a envergonhava diante dos colegas de sala -, Maria Rosenilda ainda teve que agüentar a falta de vocação de sua professora. “Eu tinha dificuldades para aprender e ela não tinha paciência comigo”, recorda. A dificuldade de relacionamento entre as duas era tanta que a mãe de Maria Rosenilda chegou a transferir a filha de escola, mas o estrago já estava feito: ela havia perdido o interesse de estudar. “Eu estava matriculada, mas faltava demais. Não conseguia ir para a escola”, conta.
As recordações que ficaram do período não são nada boas. Ela lembra que era muito duro ver todas as amigas e os irmãos indo para a escola, e ela não. “O pior é que, mesmo no tempo em que freqüentei a escola, não aprendi praticamente nada”, conta.
Devido à falta de estudo, Maria Rosenilda passou a ter dificuldades até nas coisas mais simples, como tomar um ônibus ou tomar um remédio. Há nove anos, ela se mudou para Brasília com o marido. Lá, conheceu Kedna, que, como ela, reside na Ceilândia, cidade-satélite da capital federal. Há pouco tempo, Kedna convidou a amiga para participar do curso de alfabetização promovido pela Alfabetização Solidária e pelo Governo do Distrito Federal, no qual seria alfabetizadora. “Queria muito aprender e, por isso, decidi me inscrever”, conta Maria Rosenilda.
Com o início das aulas, todas as dificuldades que ela enfrentou quando criança foram superadas. “A Kedna tem muita paciência e eu pude aprender bastante”. Agora, Maria Rosenilda já consegue ler os itinerários de ônibus, ler livros, e as cartas que sua mãe lhe envia de João Pessoa. “Participar do curso foi muito importante para minha vida”, conta.
Com a proximidade da formatura, Maria Rosenilda não esconde sua alegria. “Estou muito feliz por ter tido essa oportunidade. Quero aprender mais ainda para poder ajudar meus filhos que já estão freqüentando a escola”, finaliza.
(Out/2008)
Um exemplo de boa vontade e solidariedade
Na cidade mais populosa do Distrito Federal, a 35 km do Plano Piloto, em Ceilândia, mora a alfabetizadora Luzineide Ribeiro Mendes. Em sua própria casa, ela atende 75 alunos, divididos em três turnos (manhã, tarde e noite). "A região é um assentamento novo e há muitas pessoas que precisam ser alfabetizadas. Tanto é assim que nem precisei divulgar muito a existência do curso para montar as três turmas", explica a necessidade e importância de seu trabalho.
A falta de um local disponível na região não foi empecilho para Luzineide, com a ajuda do marido, construiu um cômodo em sua casa especialmente para as aulas. "Meu marido é pedreiro e isso facilitou um pouco as coisas", detalha, reconhecendo, no entanto, que o local ainda está longe de ser considerado ideal. "A sala é pequena, principalmente pela grande quantidade de materiais didáticos que procuro disponibilizar para os alunos".
Além do espaço ocupado pelas carteiras e pelos alunos, há uma caixa com dicionários, outra com material para pesquisa e uma terceira contendo um alfabeto móvel, que os alunos utilizam para montar palavras. Luzineide conta entusiasmada que os alunos já estão aprendendo a procurar no dicionário o significado das palavras que desconhecem, mostrando que estão tendo uma ótima evolução no curso.
Para Luzineide, alfabetizar não basta: ela quer realmente fazer a diferença na comunidade e na vida de seus alunos. "Quando se alfabetiza é fundamental valorizar a vida dos alunos", conta ela. Tanto é assim que muitas mães, por não terem com quem deixar seus filhos, acabam levando-os para a sala de aula, com a autorização da alfabetizadora.
Ela faz questão de despertar a participação cidadã e a sala é repleta de cartazes elaborados pelos alunos, abordando questões da própria sala de aula e também da comunidade. A cada quinze dias, Luzineide promove uma festa para celebrar o aniversário de seus alunos. "Reúno todos os meus alunos e eles colaboram para a nossa festinha, trazendo refrigerantes ou ingredientes para fazermos o bolo", conta.
A alfabetizadora destaca que a metodologia empregada pela AlfaSol permite que ela não só tenha um material didático e de apoio, como também que possa criar e acrescentar novas didáticas. "Também gostei muito da capacitação realizada pela AlfaSol, pois pude aprender bastante", acrescenta.
Luzineide, que recebeu a visita da equipe que coordena o Projeto abcDF, revela que o momento foi um novo estímulo para ela, já que tanto ela quanto seus alunos se sentiram valorizados pelo fato da sala de aula ter sido escolhida. Para a superintendente da AlfaSol, Regina Célia Esteves de Siqueira, "o trabalho desenvolvido por Luzineide exemplifica tudo o que acreditamos", diz. "Essa é também a primeira vez que alguém reconhece o meu trabalho. E isso é muito gratificante", conclui Luzineide.
(Set/2008)
Valorização do Semi-árido em Padre Marcos (PI)
Com apenas 44 anos de existência, o município piauiense de Padre Marcos, localizado a 393 km de Teresina, apresenta baixo índice de Desenvolvimento Humano e alta taxa de analfabetismo. E justamente por este motivo está entre as 14 comunidades do Piauí selecionadas para ser atendida pelo Programa Rede Chevrolet de Educação Solidária; uma parceria entre a AlfaSol e a General Motors do Brasil, por meio do seu braço social, o Instituto General Motors - IGM e as concessionárias paulistas da GM. "As aulas iniciaram em abril e desde então buscamos atividades que tornem as aulas sempre atrativas e dinâmicas, uma vez que a maioria dos alunos tem realmente um dia estafante de trabalho e freqüentar as aulas acaba se transformando em um desafio constante", explica a coordenadora municipal de Padre Marcos Andecléia Adalvina de Lima, 25 anos. Ela conta que entre os trabalhos realizados recentemente em sala de aula um se destacou pela boa receptividade por parte dos alunos. Inspirado pela cartilha do Selo UNICEF, o tema "Semi-árido: o meio em que vivemos", teve como objetivo promover, na sala de aula, o desenvolvimento de conhecimentos e práticas para a melhor convivência com o semi-árido por meio de atividades simples, porém dinâmicas, como recortes e colagens para a produção de cartazes, redações, ditados, exercício de leitura etc.
"Em todas as atividades procurávamos ressaltar que o semi-árido é uma condição climática característica da nossa região e por esse motivo não deve ser combatida, mas sim valorizada. É preciso conhecer com detalhes esse clima para descobrir que o ideal é aprender a conviver com ele", explica a coordenadora ressaltando que a intenção foi promover o debate coletivo e incitar a reflexão individual sobre o assunto e ainda conscientizá-los da importância do trabalho de cada um para a região, incentivando-os a permanecerem em sua terra natal ao invés de migrarem para outras regiões do País. "Foi realmente um trabalho de conscientização; de valorização dos nossos costumes e resgate da nossa cultura. O nordestino cresce ouvindo que somente nos grandes centros urbanos encontrará oportunidades, terá uma vida melhor, o que na realidade não acontece. Ao contrário, ele acaba por enfrentar adversidades ainda maiores longe de sua terra natal e muitas vezes retorna em situação muito pior do que a que se encontrava antes de ir embora".
Experiência própria
Filha de migrantes nordestinos, Andecléia sabe bem das dificuldades de se viver longe da terra natal. Nascida no próprio município de Padre Marcos, ela conta que ainda criança mudou-se com a família para o município de Cosmópolis, na Grande São Paulo, onde morou por oito anos. "Meu pai conseguiu emprego numa refinaria de petróleo como mecânico montador e levou com ele toda a família achando que teríamos uma vida melhor. Mas não melhorou tanto assim. Nossa família era grande e minha mãe teve de ajudar com a renda trabalhando de doméstica. Todos os dias me levava para o serviço com ela pois não tinha com quem me deixar. Não passamos fome mas foi uma vida difícil. Até que meu pai perdeu o emprego e decidiu nos trazer de volta. Com certeza somos muito mais felizes aqui", sentencia ela, relembrando, inclusive, que somente após voltar para o Piauí teve a oportunidade de descobrir duas das grandes paixões de sua vida: o marido e a educação de jovens e adultos. "Assim que voltei fui morar no município de Jaicós e soube que a AlfaSol estava selecionando alfabetizadores.
Conheci meu marido na capacitação e me apaixonei pela educação de jovens e adultos assim que pisei pela primeira vez na sala de aula. Costumo brincar dizendo que 'foi amor em dose dupla´", conta acrescentando que a história de sua vida com certeza teria sido menos feliz se não tivesse retornado para sua terra natal. "Com o projeto semi-árido também pude aliar o prazer de atuar com jovens e adultos à valorização da cultura e características nordestinas. Desenvolvendo conhecimentos e práticas para convivência com o semi-árido também é possível aprender a conviver melhor com as próprias potencialidades e, consequentemente, com sua comunidade. O importante é não abandoná-la. Permanecendo em nossa localidade certamente a fortaleceremos", finaliza ela, que hoje é formada em história pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Instituição de Ensino Superior parceira da AlfaSol em Padre Marcos.
(Ago/2008)
Conselho que mudou uma vida
Dizem que se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. Mas foi devido a um conselho recebido gratuitamente que Sebastião Freitas de Lima, um jovem pernambucano, de 29 anos, transformou sua vida.
Nascido no município de Bom Conselho, em uma família grande, com 15 filhos, Sebastião conta que até teve a oportunidade de estudar, mas não conseguiu prosseguir pois precisava ajudar o pai a cultivar a lavoura de banana, café e batata-doce na pequena propriedade da família. “Eu era obrigado a faltar constantemente então acabei desistindo de ir para a escola”, conta.
Anos mais tarde, Sebastião encontrou Lucineide, sua amiga e alfabetizadora da AlfaSol, que o incentivou a retornar aos estudos. O empenho da alfabetizadora foi tanto que ele não só voltou a estudar, como também convenceu seu irmão mais novo a fazer o mesmo. Após meses de muita dedicação Sebastião então, concluiu o curso, em 2000. “O curso de alfabetização da AlfaSol mudou minha vida, pois me estimulou a prosseguir os estudos e ir além”, explica.
Cheio de expectativas, assim que terminou o curso de alfabetização Sebastião fez as malas e rumou para São Paulo, onde imediatamente matriculou-se 1º segmento de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A vida não era fácil: Sebastião estudava à noite e trabalhava durante o dia como prestador de serviços de limpeza para um banco. Mas desta vez ele não desistiu e logo em seguida também concluiu também o 2º segmento.
Ele explica que estudar fez nascer nele o anseio por novos conhecimentos e motivação para buscar alternativas que lhe proporcionassem melhores oportunidades profissionais. Prova disso é que, além de estudar, Sebastião fez também um curso de informática, um outro para porteiro e ainda um terceiro, na qual aprendeu a tratar de piscinas.
Sua perseverança deu certo e as portas logo se abriram. “Consegui um emprego melhor! Hoje trabalho em uma empresa de eventos que presta serviços terceirizados para o SERASA”. Lá, entre suas atividades, está o atendimento ao telefone e o contato direto com muitas pessoas.
E não foi só! Além de melhorar profissionalmente o esforço de Sebastião em continuar estudando também lhe proporcionou renda suficiente para realizar o antigo sonho de comprar uma casa. “E não pretendo parar por aí! Assim que meu salário melhorar, vou fazer faculdade de administração de empresas”, diz cheio de expectativas com o futuro. “Tenho certeza que estudando ainda conseguirei um emprego na qual ganharei o suficiente para ter absolutamente tudo o que quero!”.
(Jul/2008)
Despertando a vocação de ensinar
A criação de dinâmicas que mantenham o pique dos alunos na sala de aula é um exercício diário para a alfabetizadora Silvana Araújo dos Santos, de 23 anos, que leciona para uma das turmas de alfabetização de alunos em Riachão do Dantas, em Sergipe, onde nasceu. Esse empenho de Silvana é fundamental para garantir a permanência dos alunos na sala e, assim, tornar o curso de alfabetização que ministra mais efetivo. Riachão do Dantas é um dos municípios integrantes do Programa Sergipe Alfabetizado, instituído pelo Governo do Estado para diminuir os índices de analfabetismo e conta com a parceria da Alfabetização Solidária como responsável pela capacitação dos alfabetizadores, tanto inicial como continuada.
Não é a primeira vez que Silvana atua como alfabetizadora. O envolvimento dela com a alfabetização de jovens e adultos começou em 2005, na AlfaSol. “Na época, eu ouvi que a Secretaria Municipal de Educação aqui da cidade estava selecionando pessoas para alfabetizar jovens e adultos. Então, procurei alunos interessados em aprender e consegui formar uma sala de alfabetização em Banana do Mato, que fica na zona rural de Riachão do Dantas”, conta.
A experiência como alfabetizadora confirmou a vocação de Silvana para ser professora. “Sempre tive vontade de lecionar e esse primeiro trabalho como alfabetizadora me deu essa certeza”, conta, acrescentando que, ao lado de outros alfabetizadores, participou da capacitação, ministrada pela Universidade Federal de Sergipe. Na ocasião, Silvana tinha apenas o Ensino Médio e decidiu que precisaria dar continuidade a seus estudos. Prestou vestibular para Matemática, na Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA), e foi aprovada. Hoje, ela freqüenta uma turma especial montada pela UVA em Lagarto, que tem aulas aos sábados e domingos, e já está no quinto período. Para viabilizar os estudos, além de atuar no Sergipe Alfabetizado, Silvana também trabalha como monitora no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), de Riachão do Dantas. “Durante o dia, trabalho no PETI; à noite, estou no curso de alfabetização e nos finais de semana, na faculdade”, conta.
O tempo corrido, no entanto, não impede que Silvana estruture suas aulas de forma a tornar o ensino agradável e garantir a presença dos alunos. “O trabalho com adulto é complicado: às vezes, estou chegando na escola e vejo meus alunos voltando da roça”, conta. E conciliar o trabalho árduo na agricultura com os estudos, não é fácil, conforme ela mesma explica . “É por isso”, diz ela, “que a freqüência oscila tanto e tem dias que a sala está praticamente cheia e, em outros, quase vazia”. Acontece também de os pais levarem os filhos para a sala de aula e muitas crianças acabarem dormindo no colo dos pais, dificultando a concentração e a participação deles nas aulas.
Assim, para driblar essas adversidades, Silvana faz uso de vários recursos, como aproveitar as músicas de Luiz Gonzaga para ensinar ou a exibição de filmes, como “Os dois filhos de Francisco”, realizando, na seqüência, comentários sobre o filme e as lições de vida apresentadas na tela. Para ensinar matemática, Silvana criou um divertido jogo de boliche. Os pinos são feitos com garrafas PET e as laranjas são utilizadas como bolas para derrubá-los. Dentro de cada garrafa, Silvana coloca um certo número de pedrinhas – cada uma contém uma quantidade diferente de pedras. Ela, então, monta a “pista” e convida os alunos para jogar. Depois que cada um joga a bola e derruba uma parte das garrafas, as pedrinhas das garrafas que caíram são somadas. “Desta forma, eles aprendem de uma forma divertida”, acredita.
E, como a maioria dos alunos já sabe ler, ela criou uma outra brincadeira de perguntas e respostas para animar a sala. A pergunta fica em um papel e a resposta, em outro. Cada aluno pega um papel e, quem tirou a pergunta, lê a frase e procura a pessoa que tem a resposta. Quando a resposta é encontrada, os alunos trocam um abraço. “São coisas simples, mas que contribuem para evitar que os alunos faltem às aulas”, diz ela.
Boa parte da inspiração de Silvana para criar as dinâmicas que agora desenvolve nas salas de aula veio das capacitações das quais participou. “Adorei a capacitação. Aprendi muito, principalmente a trabalhar os textos com os alunos; a utilizar a reciclagem em sala de aula, e até mesmo a música, que foi um dos temas que eu mais gostei nesta última capacitação da qual participei”, conta.
Para o futuro, Silvana pretende continuar desenvolvendo o trabalho de professora. “É o que realmente gosto de fazer”, conclui.
(Jul/2008)
Ler a bíblia e as músicas do coral: felicidade pura para Dona Apparecida, de Suzano na Grande São Paulo
Quando a luz do dia entra pela janela da ampla sala de aula que funciona nas dependências de uma igreja católica em Suzano, município da região metropolitana de São Paulo, várias faces tranqüilas são iluminadas. Entre elas, a da alfabetizanda Apparecida Umbelino Ferrari, que diz adorar o azul clarinho das paredes. "Principalmente em dias de sol, pois fica tudo mais claro! Acalma a mente da gente e fica mais fácil aprender".
Dona Apparecida se destaca por apresentar um detalhe inusitado na história de sua vida: apesar de ter tido um pai professor, somente agora, aos 73 anos de idade, teve a oportunidade de estudar! Ela conta que morava com a família em um sítio, no Estado de Minas Gerais, onde seu pai, único que sabia ler e escrever nas redondezas, decidiu improvisar uma pequena sala de aula para dividir com as crianças das propriedades vizinhas o conhecimento que tinha. No entanto, como costumeiramente ocorre em zonas rurais, a distância entre os sítios era grande e a sala acabou tendo freqüência predominantemente masculina. "Os pais tinham medo que acontecesse algo com as meninas no caminho e só deixavam os meninos irem. Como só tinha homem na sala, meu pai achou melhor eu não freqüentar. Antigamente era assim, fazer o quê?", relembra resignada.
Ela conta que para ela e as irmãs ele chegou a dar algumas aulas em casa mesmo. "Não sobrava muito tempo, afinal, ele também trabalhava. Minhas irmãs mais velhas conseguiram aprender bem, mas eu não consegui aprender quase nada".
O tempo foi passando, Dona Apparecida cresceu se casou e durante quase toda a vida trabalhou como costureira para garantir o estudo dos quatro filhos, hoje todos com nível superior. "Somente agora, com eles todos crescidos, estudados e casados, sobrou tempo para mim", diz salientando que em pouco tempo de aula já conseguiu realizar um dos seus maiores desejos: ler a bíblia em voz alta na abertura das "reuniões do terço", encontros que acontecem semanalmente na igreja que ela freqüenta.
Sua alfabetizadora, Luciana Pedrosa Pozzi, de 27 anos, confirma o rápido progresso de Dona Apparecida. "Seu desempenho em sala de aula realmente foi surpreendente. Quando iniciaram as aulas ela não sabia nada. Hoje já lê e escreve sem muita dificuldade. Até sua timidez melhorou. Fazer parte de evoluções como esta, está tornando minha experiência com a AlfaSol ainda mais gratificante do que eu esperava", diz Luciana, acrescentando que o suporte da Alfabetização Solidária durante todo o processo de alfabetização também é fundamental para o bom aproveitamento dos alunos. "Ahhh... tem também outra coisa importante que agora eu consigo fazer: ler as músicas que eu canto no coral lá na igreja. Agora não preciso mais decorar!", comemora feliz da vida Dona Apparecida.
(Jun/2008)
Redirecionando a carreira
Encarar um novo desafio. Esse foi um dos motivos que levou Elimar Gonçalves Santos Oliveira, de 43 anos, a inscrever-se como alfabetizadora do Projeto abcDF, mantido em parceria com a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal (GDF). “Já tinha participado por dois anos de outro programa de alfabetização, realizado pela Polícia Militar do Distrito Federal e pela Faculdade Cenecista de Brasília (FACEB), onde estudo Pedagogia. Uma de minhas professoras me contou sobre o abcDF e eu resolvi participar da seleção de alfabetizadores”, lembra.
Elimar conta que o primeiro desafio a ser vencido foi a diferença na forma de atuação entre os dois projetos. No abcDF, Elimar montou a própria sua turma e ajudou a viabilizar o espaço para ministrar as aulas. Nesse esforço, ela contou com a ajuda de amigos e vizinhos, que também a ajudaram na divulgação do curso. Até o padre que cuida da Paróquia do bairro foi um dos mais ativos colaboradores: além de divulgar o curso nas missas, cedeu uma sala para a realização das aulas. “As pessoas procuravam a secretaria da Igreja em busca de mais informações e também para fazerem suas inscrições. Só que eu fiz questão de estabelecer um método diferente: primeiro, os interessados deixavam o nome e endereço na Igreja e, depois, eu visitava cada um para efetivar a matrícula”, conta. Assim, ela já mantinha um contato com os alunos e ficava mais fácil garantir a presença deles nas aulas.
Quando o curso começou, Elimar procurou deixar as aulas bem dinâmicas, trabalhando a auto-estima de cada aluno. “Não é possível tratar o adulto como criança, nem infantilizá-lo. É preciso passar confiança e credibilidade, além de valorizar o que eles sabem”.
Por isso, em cada aula, ela reserva um tempo para tirar dúvidas, no qual os alfabetizandos podem perguntar o que quiserem. Antes de responder, ela sugere que eles busquem o significado da palavra no dicionário e depois é realizada uma troca de opiniões sobre o que encontraram. Com isso, os alunos acabam se interessando por temas diferentes e ampliando seus conhecimentos. “Os alunos têm aceitado bem tudo o que levo para a aula. Discutimos desde o aquecimento global até a importância de preservarmos nossas reservas de água”, exemplifica.
Nas aulas, ela também conta com o apoio de uma pequena biblioteca itinerante (uma mala de viagem com rodinhas), cedida pela Secretaria de Cultura do município. Os alunos escolhem os livros que desejam ler e, nesse processo, se quiserem, podem pedir para a alfabetizadora auxiliá-los na escolha do livro.
Ela destaca o apoio que obteve da Universidade Católica, instituição de ensino superior parceira, na condução das aulas. “Tive uma boa orientação da universidade, que sempre dá apoio e corrige o que é necessário, porém sempre com muito respeito pelo trabalho desenvolvido pelos alfabetizadores”, diz Elimar.
Para ela, a participação no projeto fez com que ela descobrisse uma vocação. Aluna do sexto semestre de Pedagogia na Faceb, ela já sonha em cursar a pós-graduação na Universidade de Brasília na área de Educação de Jovens e Adultos, já que, como ela mesma diz, identificou-se com o trabalho de EJA. “Tenho trabalhado nesse sentido e estou desenvolvendo um artigo na área de sócio-linguística”, explica. “Tenho muita vontade de dividir o conhecimento que adquiri com as outras pessoas”, conclui.
(Abril 2008)
Iluminada pela educação
A vida de D. Celestina Ribeiro de Oliveira pode até ter começado como a de muitos brasileiros. Mas até hoje, aos 55 anos, ela faz tudo o que pode para fazê-la diferente. Nascida em Santa Rita de Cássia, na Bahia, D. Celestina era de uma família grande, com nove irmãos, que, juntos, ajudavam os pais na lavoura para o sustento da casa. “Desde pequena, tive que pegar na enxada para ajudar meus pais. Nós plantávamos milho, filho, feijão, arroz, e criávamos porcos e galinhas”, recorda. A escola era longe e, assim como ela, os irmãos também não estudara. Quando tinha 20 anos, deixou Santa Rita de Cássia para tentar a sorte em Brasília. Logo que chegou, conheceu seu marido e casou-se.
O trabalho consumiu, então, todo o tempo do casal, que não teve filhos. “Meu marido era funcionário público aposentado e, para complementar a renda, trabalhávamos em feiras, bares”, diz ela.
Depois de um tempo, adquiriram um pequeno pedaço de terra no distrito de Alvorada do Norte, em Goiás, onde permaneceram até o falecimento de seu marido, há 10 anos. “Desde então, acabei desistindo da plantação, vendi tudo o que tinha em Goiás e voltei para Brasília, onde vivo até hoje”, conta.
A oportunidade de estudar chegou em 2007, quando soube do Projeto abcDF, uma parceria da Alfabetização Solidária e do Governo do Distrito Federal. Desde que começou o curso, D. Celestina não perde uma aula. “Eu me sinto como uma criança que está aprendendo a engatinhar e logo estará correndo!”, afirma ela. Hoje, D. Celestina já consegue ler a Bíblia, uma das coisas que ela mais tinha vontade de ler. A continuidade dos estudos é uma realidade para ela, que quer aprender mais e mais. “A educação é o melhor caminho. Por ela, você enxerga, se torna mais alegre, mais firme. Antes, eu estava no escuro”, conclui.
(Abril 2008)
Em busca de novas oportunidades
A falta de leitura e de escrita fez o Sr. Bonifácio Mendes da Silva, de 60 anos, perder muitas oportunidades na vida. Isso porque, no município de Prata do Piauí (PI), onde ele nasceu e cresceu, estudar não era considerado prioridade. “Eu até cheguei a freqüentar a escola, mas como ainda era uma criança preferia me divertir no campo cuidando do gado e dos outros animais da fazenda do que sentar num banco para estudar”, relembra. Na ocasião, Bonifácio morava com o avô materno, que teve a permissão dos pais dele para criar o neto. “Eu fui o mais velho de 24 irmãos, sendo onze do primeiro casamento do meu pai e os outros 13 do segundo”.
Quando tinha entre 15 e 16 anos, um dos tios, que também morava na fazenda, contratou um professor para dar aulas para Bonifácio, mas ele não teve interesse e não deu importância para a iniciativa do tio. “Depois, com 23 anos, eu me casei, mas mesmo assim continuei residindo com meu avô e meu tio por mais cinco anos”, recorda.
Somente em 1980, quando, juntamente com a esposa, decidiu tentar a sorte em Brasília, foi então que Bonifácio começou a sentir a falta que o estudo faz. Seu primeiro emprego foi no Ceasa, onde embalava cebolas, batatas e outros alimentos. Ficou por dois anos. Em seguida, conseguiu outro emprego em uma empresa que comercializava frutas e a dura jornada de trabalho, de segunda a sábado, das 3h00 às 22h00, consumia toda a sua energia. “Mas era preciso, porque a família cresceu e eu já tinha cinco filhos”, conta. Anos atrás, quando seu chefe se aposentou, Bonifácio poderia ter assumido o cargo dele, mas, por não saber ler e escrever, a vaga foi oferecida a outro colega. “Nessa ocasião, descobri como estudar é importante e como atrapalhou minha vida não saber ler e escrever”, diz.
Devido a uma política pública de distribuição de lotes implantada pelo Governo do Distrito Federal, Bonifácio ganhou um terreno. “E, como contava com mais de 10 anos de trabalho na empresa, fiz um acordo trabalhista e, com o que recebi, construí minha casa, onde moro até hoje”, relata.
Atualmente, Bonifácio trabalha em feiras nos finais de semana e, por contar com tempo livre, resolveu aceitar o convite da coordenadora Marileide Alves para participar da 1ª etapa do Projeto abcDF - uma parceria entre a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal - iniciada em outubro de 2007. E hoje já nota os avanços: “Consigo ler, fazer contas e já escrevo tudo o que a professora escreve no quadro”. Em breve, Bonifácio começará a trabalhar em um novo emprego e está torcendo para encontrar uma escola próxima a de sua residência, que ofereça cursos de EJA, para dar prosseguimento à sua educação. “Estudar é bom e, devagarzinho, vou aprendendo o que preciso. O importante é nunca mais perder boas oportunidades de emprego por causa da falta de estudo”, finaliza.
(Abril 2008)
Superando o medo de aprender
“A melhor coisa que me aconteceu foi ter feito esse curso de alfabetização”. A afirmação vem do Sr. Antonio José Almeida, de 60 anos, nascido no município baiano de Correntina, mas morador de Brasília, Distrito Federal, há mais de 30 anos. Segundo Sr. Antonio explica que, por várias vezes, tentou continuar os estudos, mas acabava desistindo, pois sentia muita dificuldade para aprender Matemática. “Eu não conseguia entender e isso me desestimulava tanto que eu tratava e deixava de estudar”, conta ele, que só conseguiu concluir o 1º segmento do ensino fundamental. “E já faz tanto tempo que esqueci o pouco que aprendi. Eu acabei valorizando muito mais o trabalho do que o estudo, mas sempre soube de sua importância. É o primeiro caminho que temos de percorrer na vida”, explica.
Casado por duas vezes, Sr. Antonio teve onze filhos e mudou-se para Brasília por conta de um problema de saúde enfrentado por uma de suas filhas. Antes de se mudar de Correntina, ele trabalhava comprando e revendendo grãos, como arroz, feijão e milho, mas largou tudo para cuidar da saúde da filha, que, como ele mesmo diz, hoje está casada e feliz. “Porém, depois que ela ficou boa, ninguém mais quis voltar para a Bahia e decidimos ficar aqui em Brasília mesmo”.
Para sobreviver e criar os filhos em Brasília, Sr. Antonio, então, passou a trabalhar fazendo de tudo um pouco. “Só não lavei banheiros”, brinca. Trabalhou como ajudante em diversas construções e até como vigilante. Hoje, já aposentado, Sr. Antonio ainda trabalha realizando uma ação social importante. Ele auxilia alguns empresários da região a distribuir alimentos para as pessoas carentes moradoras do Distrito Federal e Goiás. “Distribuo diariamente mais de 130 toneladas de batatas por dia, nos municípios de Santa Maria, São Sebastião, Paranoá, Águas Lindas, Taguatinga, Ceilândia, entre outras. Fiquei até conhecido como o Antonio das Batatas”, brinca.
E foi justamente neste trabalho social, na qual Sr. Antonio tem mais contato diário com as pessoas, é que ele sentiu mais a falta que os estudos faz. Além disso, a distribuição de alimentos será feita por meio de um cadastro de cada família beneficiada e ele será responsável pelo levantamento desses dados.
Foi o estímulo que faltava para que Sr. Antonio decidisse se matricular em uma das turmas da primeira etapa do Projeto abcDF, uma parceria instituída entre a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal. Com cerimônia de conclusão marcada para abril próximo, Sr. Antonio comemora, feliz, os avanços conquistados. “Além de assinar documentos, agora posso ler o conteúdo deles, coisa que antes não fazia. Também tinha que pedir sempre para alguém ler as cartas que recebia e, às vezes, as pessoas não podiam ler para mim por estarem ocupadas. E, quando liam, acabavam tendo acesso a informações pessoais, que eu não gostaria que soubessem”, conta.
Agora seu maior desejo é prosseguir com os estudos, inclusive ele já tem vaga garantida em EJA. “Agradeço muito por essa oportunidade de voltar a estudar que o Projeto abcDF me proporcionou e o indico para todos aqueles que conheço”, diz ele, acrescentando que mais de 30 conhecidos passaram a freqüentar o curso depois que ele os convidou. “Assim como consegui uma coisa boa, quero que os outros também tenham a mesma oportunidade”, finaliza.
(Abril 2008)
Descobrindo o prazer de estudar
Estudar nunca esteve entre os planos de Francelina Soares dos Santos, de 59 anos, apesar dos esforços de sua mãe para manter os filhos na escola. “Eu não gostava de estudar e, entre meus irmãos, fui a única que não levou os estudos adiante”, afirma. Nascida em Mansidão, na Bahia, Francelina veio para Ceilândia, no Distrito Federal, aos 15 anos, para tratar de um problema de saúde que tinha na pele. “Vim para o tratamento e acabei ficando de vez”, conta.
Desde então, começou a trabalhar como diarista em casas de família e, aos 19 anos, casou-se. Teve nove filhos, dos quais sete estão casados e dois, solteiros, ainda moram com ela. Por causa da criação dos filhos e do trabalho como diarista, não sobrou tempo para Francelina pensar em mais nada, embora tivesse surgido, há algum tempo, uma vontade de voltar a estudar. “Mas ficou só na vontade”, afirma ela.
O tempo passou e, no ano passado, uma das filhas a inscreveu no Projeto abcDF, desenvolvido pela Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal. Começou a freqüentar as aulas da primeira etapa do projeto e adorou o curso. “Antes eu achava tudo muito difícil, mas estou me esforçando para aprender e sei que já melhorei bastante”, conta.
Ela explica que sabia um pouquinho, mas não conseguia ler tudo o que queria. “Já melhorei bastante e consigo ler tudo o que aparece. Inclusive, já escrevo pequenos textos, sem necessidade de copiar da lousa”. O fato de o curso ser perto da escola funciona como outro estímulo importante para ela. “Sempre tive que trabalhar, fazendo jornada dupla até tarde da noite e acordando cedo no dia seguinte. Então, poder voltar cedo para casa é ótimo”, diz ela, acrescentando que as aulas acontecem das 19h00 às 21h00.
A família dá o maior apoio para que ela continue estudando. A torcida agora é para que Francelina consiga prosseguir seus estudos de EJA em uma escola próxima de sua residência.
(Abril 2008)
Sempre há tempo para aprender
O trabalho na terra, as dificuldades do sertão, a pobreza e a distância da escola foram fatores que impediram que o Sr. Agostinho Vieira da Silva, de 76 anos, estudasse quando menino. Nascido no município piauiense de Floriano, a 180 km da capital, Sr. Agostinho desde cedo trabalhou na lavoura para ajudar os pais. “Com 10 anos, cheguei a freqüentar a escola, mas não aprendi nada e acabei parando”, lembra. Parte dessa falta de interesse pode ser creditada aos rigores do ensino da época. Ele conta que os alunos tinham que aprender a lição assim que era explicada. “Caso contrário, nós, literalmente, apanhávamos da professora”, explica ele, acrescentando que nomeia esse período como “tempo do atrasado”. Por isso, segundo Sr. Agostinho, assim que os alunos arrumavam um trabalho para receber alguns trocados, deixavam imediatamente a escola, que não oferecia nenhum atrativo. Para completar, havia uma valorização do trabalho braçal e as pessoas não compreendiam a importância do estudo.
E assim o tempo passou. Sr. Agostinho trabalhou na lavoura, no plantio de grãos, cana-de-açúcar... Aos 18 anos, mudou-se para Barão de Grajaú, no Maranhão, e, logo em seguida, para São João dos Patos, no mesmo Estado. Aos 25 anos, ele se casou e, em 1962 mudou-se para Brasília “em busca de uma vida melhor”. Morou lá por cinco anos, trabalhando em empresas de urbanização instaladas na cidade recém-inaugurada, e, em seguida, foi com a família, esposa e quatro filhos, para Goianésia, onde permaneceu por 13 anos. De volta à Brasília, Sr. Agostinho aproveitou sua experiência em lavouras e na empresa de urbanização e passou a trabalhar como jardineiro.
Há 30 anos conseguiu comprar sua casa, hoje já quitada. Mesmo assim, ele continuou a trabalhar até os 70 anos, quando finalmente se aposentou. Com a aposentadoria, veio o tempo que ele nunca teve para estudar. Matriculou-se em uma das turmas do Projeto abcDF, desenvolvido em parceria com a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal, que acontece na Ceilândia. “O curso está sendo muito bom para mim. A professora é muito paciente”. A velocidade do aprendizado não o assusta. “O tempo de aprendizado varia de pessoa para pessoa: alguns têm mais facilidade para aprender, outros têm dificuldade. O importante é continuar estudando”, defende.
Seus filhos também estão todos concluindo os estudos e moram em Brasília. Ele gosta muito da capital federal, uma vez que a considera cheia de oportunidades. “É muito nova, não tem nem cinqüenta anos, e, assim, podemos crescer juntamente com a cidade”, acredita Sr. Agostinho.
Agora próximo de receber o primeiro certificado de sua vida, Sr. Agostinho diz pretender continuar estudando. “Quero aprender ainda mais a fazer contas, pois sempre fui contra o uso de calculadora”, defende.
(Abril 2008)
Respeito e valorização das diferenças culturais na aldeia Porto Lindo, Japorã (MS)
Em um país tão extenso e tão rico culturalmente como o Brasil, valorizar a equidade e atentar à diversidade é fundamental, principalmente quando o assunto é educação. Baseada nessa premissa, a Alfabetização Solidária amplia o acesso a leitura e a escrita em diversas comunidades sempre respeitando ao máximo a diversidade cultural brasileira através da valorização das manifestações culturais tradicionais de cada localidade atendida. É o caso do município de Japorã (MS) onde a AlfaSol, em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e Enersul, atende a comunidade indígena da aldeia Porto Lindo.
Situada na zona rural do município, a Aldeia de Porto Lindo é uma reserva indígena onde foram concentradas comunidades vindas de diversos lugares, após serem expulsas de suas terras pela expansão agropecuária e a destruição das matas restantes na região. Atualmente, mais de quatro mil índios das etnias guarani e kaiuá moram em Porto Lindo. Segundo a coordenadora pedagógica da UCDB, Angela Cristina Catonio, a melhoria das condições de vida é uma das implicações indiretas da atuação da AlfaSol na comunidade. "Ler e escrever não é simplesmente decodificar símbolos, mas exercer a cidadania e preservar os costumes", conta.
Embora o português seja falado pela maioria dos índios da aldeia, alguns alunos das salas de alfabetização se comunicam apenas em guarani, que é a língua materna. Angela conta que na capacitação foi discutido que o guarani e os conhecimentos que contém seriam valorizados durante todo o processo de alfabetização, assim como oportunizado o acesso a língua portuguesa, de forma a valorizar as duas línguas. "No decorrer da capacitação elaboramos vários materiais didáticos para auxiliar na prática pedagógica em sala de aula", lembra a professora da UCDB, Rosa Colman, especialista em comunidades indígenas, que participou de uma das capacitações dos alfabetizadores de Japorã a convite da professora Angela.
Durante as capacitações também foram debatidos com os alfabetizadores temas como localização territorial, importância da alfabetização, comunicação falada e escrita, planejamento de aula, entre outros. Essa é a primeira vez que a AlfaSol atua nessa comunidade e as aulas devem finalizar em abril. "Ainda desenvolveremos muitas atividades com eles, mas já podemos perceber que a receptividade está sendo muito boa, os alfabetizadores e os alunos estão muito empenhados.
Está sendo uma experiência muito interessante!", diz Ângela. As mudanças que a AlfaSol está trazendo para a comunidade e as conseqüências de sua atuação já são sentidas e valorizadas. "Tanto para os alunos, quanto para os alfabetizadores, o trabalho desenvolvido pela Alfabetização Solidária já está resultando em novos conhecimentos, além de uma maior conscientização da importância da preservação da sua cultura", ressalta Ângela.
Aliás, a preocupação com a valorização da cultura indígena está sempre presente, desde as capacitações até as atividades desenvolvidas em sala de aula.
"Realizamos atividades com os alfabetizadores para que eles possam aplicar com os seus alunos, sempre atentos as suas tradições. Em uma das capacitações levamos livros em guarani para leitura e discussão, e desenvolvemos um exercício no qual cada alfabetizador desenhou um animal e escreveu sobre ele em guarani. No final, esses relatos resultaram em um pequeno livro!", relata Angela.
Outro ponto importante desse trabalho na comunidade é a inserção dessa população indígena no mundo fora da aldeia, respeitando as diferença e valorizando a sua cultura. "Muitos adultos guaranis que são analfabetos sentem dificuldades para transitarem no mundo dos não índios, por não dominarem os códigos da escrita da Língua Portuguesa. Para eles é uma questão de autonomia ter a oportunidade de ter uma noção da escrita. E a Alfasol é imprescindível neste processo, por contribuir com essas populações que sempre foram muito marginalizadas em todos os sentidos e também no âmbito educacional".
(Março/2008)
Com os estudos, maior autonomia
A trajetória de vida de Maria Dantas da Silva impediu que, quando criança, ela pudesse estudar. Para ajudar o pai, lavrador, no trabalho que garantia o sustento da numerosa família – oito irmãos no total -, a escola teve que ser deixada de lado. “Na época, morávamos em Santana do Mato, no Rio Grande do Norte, onde nasci, e não existia escola perto de casa. Era tudo muito difícil”, recorda D. Maria, hoje com 70 anos. Na época, o único contato que ela teve com a alfabetização foi por meio de um de seus irmãos, que havia mudado para a cidade e ensinou a ela algumas letras. “Ele foi morar na cidade e conseguiu estudar, mas, apesar da boa vontade dele, não dava para aprender muito, porque ele só vinha nas férias . Mas como eu trabalhava na lavoura não tinha tempo nem para me lembrar disso”, conta.
E assim ela foi levando a vida. Quando completou 13 anos, uma forte seca atingiu o município de Santana do Mato por sete anos, fazendo com que seu pai decidisse mudar com a família para Santa Rosa, no Maranhão. Porém, a mudança ainda não significou seu acesso aos estudos. Com 18 anos, mudou para Pedreiras, outro município maranhense, e começou a trabalhar como auxiliar de costureira, caseando e pregando botões. Foi nesta cidade que Maria, aos 22 anos, conheceu seu marido e junto com ele acabou voltando para a lavoura onde criou seus dois filhos.
Passados 18 anos, com os filhos já crescidos, a família decidiu mudar-se para São Luís para buscar uma vida melhor. “Foi então que conheci Rosireni Santos Monteiro, alfabetizadora da Vale Alfabetizar, que me convidou para participar do curso de alfabetização que iria acontecer na casa dela. Comecei devagarzinho e hoje estou indo muito bem”, comemora. A família deu muita força, principalmente seu marido, que sabe ler. Para ela, os ganhos advindos dos estudos são inegáveis , mas o principal deles foi a maior autonomia. “Antes eu tinha dificuldade até para ir sozinha ao supermercado. Agora ganhei mais autoconfiança e vou desacompanhada sem problemas”, conta, destacando também as novas amizades que fez durante o curso. “Foi muito bom ter tido essa oportunidade”, conclui.
(Fevereiro/2008)
De filho para pai: o valor da educação em família
Na vida, boa parte da educação e dos ensinamentos que adquirimos ao longo de nossa história pessoal vem dos nossos pais. Muito dessa premissa se aplica à família de Milton Alexandre da Silva, 60 anos, que mesmo sem saber ler e escrever estimulou seus 10 filhos a estudar e ensinou a eles o valor da educação.
Desde pequeno trabalhando na roça, faltou tempo e oportunidade para freqüentar os bancos escolares. Sem nunca ter pisado em uma sala de aula, Milton conta que uma vez aprendeu a escrever seu nome, mas como não praticava acabou esquecendo. “Quando eu era jovem, uma amiga chegou a me ensinar e na época até tirei meus documentos assinando!”, relembra.
Nascido em Arapiraca (AL), depois de passar por vários municípios da região, acabou se envolvendo com o movimento dos sem-terra e hoje conquistou seu próprio terreno em um assentamento em Traipu (AL). “Casei, formei família e dei a todos os meus filhos a oportunidade de estudar. Hoje, tenho dois filhos professores, que fizeram faculdade. Tem também o José Carlos, que é alfabetizador da AlfaSol e me levou até a sala de aula!”, conta.
Isso mesmo! Nessa família a educação também vem de filho para pai. “Quando fiquei sabendo que existiam vagas para alfabetizadores aqui em Traipu, imediatamente fui me inscrever, vi na oportunidade a chance de realizar meu sonho de ser professor! Também fiz questão de estimular meu pai a estudar, tinha certeza que comigo ele aprenderia. Além disso, era uma forma de eu retribuir o apoio que ele sempre me deu”, se orgulha José Carlos dos Santos Silva, 25 anos.
E aprendeu mesmo, com muito esforço tanto do aluno quanto do alfabetizador, pois ambos trabalham na roça durante o dia. “Assim que comecei a dar aulas percebi que meus alunos tinham mais facilidade em aprender os números do que as letras, porque os números já faziam parte da rotina deles”, conta o alfabetizador.
A fim de facilitar o aprendizado de seus alunos e evitar a evasão, José Carlos usou de sua criatividade para realizar uma atividade interessante em sala de aula, na qual procura mesclar letras e números. “É bem simples, escrevo uma palavra e classifico cada letra com um número. Depois, dou uma seqüência de números que representam uma palavra, assim eles associam os números com as letras e escrevem novas palavras. Mais ou menos como aquelas atividades que existem em revistas de palavras cruzadas”, explica. Segundo ele, a tática deu tão certo que seus alunos já estão escrevendo e gostam muito de freqüentar as aulas. “Eles até disputam ditado!”.
José Carlos também gostou muito da experiência em sala de aula e não pretende parar. Ao contrário, cheio de expectativas pretende continuar seus estudos e fazer faculdade de história, mesmo com todas as dificuldades que enfrenta. “Depois de passar o dia todo trabalhando na roça, ainda tenho muita disposição para ir à sala de aula no final do dia e a felicidade de ver a evolução dos alunos me enche de força de vontade!”, justifica.
(Fevereiro/2008)
Primeiro passo de uma vida inteira
Um primeiro passo. Assim como para os seus alunos, para a alfabetizadora Janielma da Silva Pereira, 21 anos, a Alfabetização Solidária também representou o início de uma longa jornada. Nascida em Traipu (AL), ela sempre morou na zona rural do município, afastada das oportunidades educacionais da cidade.
Filha caçula de uma família de nove irmãos e apenas a mãe para tomar conta de todos, ela não escapou do trabalho na agricultura. “Acordo bem cedo, vou buscar água - porque aqui não tem água encanada - e na época da colheita também ajudo na roça”, afirma.
Mas nem essa distância física e a dura rotina fizeram com que desanimasse. Ela já está finalizando o ensino médio e pretende fazer curso pré-vestibular para conseguir ser aprovada no vestibular para educação física na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), no campus de Arapiraca. “Tenho muita vontade de mudar de Traipu e conquistar todos os meus sonhos”, conta.
Quem vê a garra que Janielma demonstra ao falar, não imagina todas as dificuldades que enfrentou. “A minha mãe era muito rígida, não me deixava freqüentar a sala de aula. Aos oito anos eu acompanhava meus irmãos até a escola escondida, sem matrícula, tinha muita vontade de estudar!”, lembra.
A mesma força de vontade que fez Janielma insistir com a mãe até que fosse matriculada na escola, também fez com que ela procurasse o secretário de educação de Traipu para obter mais informações sobre a AlfaSol. “Sempre ouvia falar da Alfabetização Solidária, muita gente comentava sobre os benefícios que trazia para as pessoas. Tinha muita vontade de conhecer e fazer parte”.
Nessa visita à Secretaria Municipal de Educação, ela descobriu que poderia ser alfabetizadora. Tímida, Janielma conta que no início sentiu insegurança sobre como seria sua atuação em sala de aula. “Nesse sentido, a capacitação foi essencial, aprendi muito. Tinha muita força de vontade para ensinar, mas não sabia exatamente como fazê-lo!”, lembra.
No primeiro dia em sala de aula como alfabetizadora, não conseguia acreditar que estava realizando seu sonho. “Senti um misto de felicidade e nervosismo. Entrei na sala tremendo... Mas hoje já tenho a certeza de que quero muito continuar alfabetizando”, diz.
Os alunos de Janielma sentem o mesmo. Com uma sala de aula composta por estudantes jovens, entre 15 e 30 anos, ela representa um exemplo de determinação e força de vontade. “Acho que esse reconhecimento dos meus alunos é resultado de um trabalho que foi feito com muito carinho”, orgulha-se.
Dedicada aos estudos e a sala de aula, ela diz que não sobra muito tempo para sua vida pessoal. “Não consigo nem namorar... mas também penso que é melhor terminar os estudos para depois pensar em algo mais sério”, diverte-se. E assim, Janielma segue em busca do seu sonho e diz que não vai desistir quando surgirem obstáculos. “A AlfaSol representou um primeiro passo para a minha vida, foi uma experiência inesquecível que me mostrou que eu tenho capacidade de realizar muita coisa e de superar tudo!”.
(Fevereiro/2008)
Na porta do céu!
“Se tivesse tido a oportunidade de estudar quando mais jovem, hoje seria um advogado”. A afirmação contundente vem do Sr. Agnel da Silva Ferreira, que somente agora, ao completar 88 anos, pôde aprender a ler e escrever. Ele foi um dos formandos de uma turma de 225 jovens e adultos que conseguiram concluir o curso de alfabetização inicial oferecido no município de Curionópolis, no Pará, pelo Vale Alfabetizar, uma parceria da Fundação Vale e Alfabetização Solidária.
Nascido em São Luis Gonzaga de Campo Maior, no Piauí, Sr. Agnel explica que não estudou quando criança, pois morava e trabalhava na zona rural e a escola ficava na cidade. "Era uma época muito atrasada! Tudo ficava muito distante e meus pais também não puderam nos ensinar nada pois trabalhavam na lavoura e não chegaram a estudar. Quando conheci o mundo, já era tarde”, lembra.
O tempo foi passando e, sem estudo, não restou ao Sr. Agnel outra opção a não ser continuar se dedicando ao trabalho na lavoura. E foi cuidando de plantações de arroz, milho, feijão e mandioca, por mais de 40 anos, que ele encontrou condições de criar os 35 filhos que teve durante em seus quatro casamentos.
Em 2007, já aposentado e morando em Curionópolis, no Pará, Sr. Agnel recebeu o convite da alfabetizadora Núbia Darc de Jesus Araújo e matriculou-se no curso de alfabetização promovido pelo Vale Alfabetizar.
Hoje, após freqüentar as aulas, ele mesmo avalia a evolução de seu aprendizado. “Estou escrevendo bem e também já faço muitas contas", comemora ele, lamentando somente o fato de não ter tido a oportunidade um pouco antes. "Se hoje eu tivesse pelo menos 50 anos teria uma memória melhor e aprenderia com mais facilidade. Com certeza eu poderia ter ido mais longe e até, quem sabe, ter frequentado uma universidade”, conta , creditando todo o progresso que obteve em seu aprendizado à alfabetizadora Núbia . "Ela realmente explicava muito bem e, mais importante, tinha muita calma e paciência com a gente".
Mas Sr. Agnel também faz questão de destacar que "o presente que ganhou durante o curso" também foi fundamental no processo de seu aprendizado. Ele refere-se aos óculos que recebeu do Projeto Ver, também uma parceria entre a Fundação Vale e a AlfaSol , que oferece consultas oftalmológicas e óculos gratuitamente com o objetivo de proporcionar melhor qualidade de vida e condições de aprendizado aos jovens e adultos matriculados no curso. “Tinha dificuldades em enxergar e agora esse obstáculo foi vencido . Eu chamo os óculos de presente pois eles não me auxiliaram somente na sala de aula, mas em todos os momentos da minha vida”, diz ele. E conclui: “O Vale Alfabetizar me ajudou a ser mais feliz. Parece que agora as portas do céu se abriram para mim” .
(Fevereiro/2008)
Partilhando experiências na sala de aula
No Programa Grandes Centros Urbanos (PGCU) de Salvador, na Bahia, três alfabetizadoras, que também são agentes de saúde municipal, resolveram partilhar com os alunos um pouco das informações adquiridas em suas experiências profissionais. Tratam-se das alfabetizadoras Rosa Maria Soares da Cruz, Djaci Oliveira Barcelos e Maria da Conceição de Santana Ferreira, responsáveis pela alfabetização de quase 100 alunos na Escola Municipal Risoleta, localizada no bairro Saramandaia. Elas incluíram nas atividades do curso de alfabetização palestras sobre temas diversos, como higiene, hipertensão arterial e doenças sexualmente transmissíveis, além da exibição de filmes, como “Vem dançar” e “Dois filhos de Francisco - a história de Zezé de Camargo e Luciano”. “Acreditamos que temos o dever de orientar os alunos para que eles reúnam informações no intuito de tomar atitudes adequadas”, explica a alfabetizadora Djaci.
Elas procuraram trabalhar com temas transversais ao curso, principalmente aqueles que se mostraram mais necessários em relação à realidade apresentada pela sala de aula. A região tem, por exemplo, muitos casos de prostituição, além de doenças diversas, como a hipertensão arterial e aquelas que são sexualmente transmissíveis. Segundo as alfabetizadoras, a maioria dos alunos, integrada por donas-de-casa, profissionais liberais, trabalhadores da construção civil e aposentados, jamais havia recebido esse tipo de informação. “Alguns temas, como DST, são cercados de preconceitos”, conta Djaci. Ela explica que os alunos têm, geralmente, a falsa idéia de que os problemas das DST só atingem determinadas partes do corpo, não tendo a menor noção das conseqüências que podem surgir caso não sejam corretamente tratadas, e muito menos que os infectados acabam transmitindo doenças para outras pessoas. “Eles também não sabem usar camisinhas e, por isso, a falta de informação deles é um fator de risco para outras pessoas”, diz Djaci.
Para dar uma melhor explicação sobre os assuntos, as alfabetizadoras reuniram as turmas durante as palestras, realizadas uma vez por mês, e utilizaram materiais ilustrativos, como fotos da evolução das DSTs em pessoas que não foram tratadas. “Eles ficaram espantados com as conseqüências quando viram o resultado da ação da doença”, acrescenta Djaci. Outra descoberta importante, destacada pela alfabetizadora Rosa Maria, é que muitos dos alunos perceberam que, além das doenças não serem curadas com qualquer tratamento, é preciso adotar medidas preventivas para combatê-las.
Já os filmes foram utilizados para discutir a semelhança entre a história abordada e a realidade dos alunos. “Durante os encontros, procuramos dar total abertura para que os alunos pudessem conversar, opinar e ou esclarecer dúvidas sobre os temas enfocados”, detalha Djaci.
Apesar do impacto positivo na vida de alguns alunos, que procuraram médicos e decidiram fazer exames para detectar algumas doenças, as alfabetizadoras perceberam que muitos deles não estavam preparados para discutir alguns dos temas abordados, como as DST. “O assunto ainda é um tabu para eles”, acredita Rosa Maria. As alfabetizadoras contam que muitas vezes ficaram surpresas com as curiosidades e as questões levantadas pelos alunos, principalmente quando se leva em conta que são adultos.
Para elas, os encontros tiveram um resultado maravilhoso, uma vez que cumpriram com a missão de transmitir conhecimentos que os alunos podem adotar em suas vidas. “O ensino”, conforme explica Rosa Maria, “tem a ver com isso. Os alunos precisam saber o que está acontecendo no mundo e descobrir a vida”.
(Novembro/2007)
Excursão Solidária
No município de Aquiraz, interior do Ceará, a alfabetizadora Francisca Roberta Feitosa Matos, 26 anos, decidiu ir além da importante tarefa de ensinar jovens e adultos a ler e escrever suas primeiras palavras e foi mais longe: organizou, com entusiasmo de seus alunos, uma visita ao Museu Memorial da Liberdade, na cidade vizinha de Redenção, a primeira no país a dar alforria aos escravos africanos, pondo fim ao sistema escravocrata no Brasil.
Estudante do quinto semestre do curso de história na Universidade Vale do Acaraú (UVA), Francisca explica que a idéia de levar seus alunos para conhecer um pouco mais sobre a história da escravidão no Brasil surgiu quando visitou o museu com sua turma da faculdade. “Durante a visita, imediatamente pensei que seria interessante levar meus alunos para conhecer o local, que ainda detém muitos símbolos que remetem à época da escravidão, como pelourinhos, senzalas e até roupas” diz. Ela conta que, ao ministrar uma das aulas para sua turma, com faixa etária entre 32 e 61 anos, ela comentou da possibilidade de visitarem o local histórico, situado a 200 km de distância da sala de aula. “Eles ficaram eufóricos. Foi aí que descobri que nenhum deles havia deixado o município de Aquiraz em suas vidas. Essa seria a primeira vez que eles fariam um passeio cultural e a primeira vez que conheceriam outra cidade”, conta Roberta que diz ter ficado surpresa com o enorme interesse que os alunos demonstraram também durante a visita. “Chegamos bem cedinho, pouco antes de o museu abrir. Quando as portas se abriram já havia um funcionário do museu para guiar nossa visita. Eles ficavam perguntando, indagando, investigando tudo. Tiraram tudo que podiam do guia que nos acompanhava”, conta orgulhosa da turma.
Roberta sabe da influência e responsabilidade que teve sobre seus alunos, e diz que ao observar as reações da turma sentiu-se engrandecida. “Pra mim foi muito gratificante poder proporcionar para eles algo que nunca fizeram na vida. Não só pelo apelo cultural da visita, mas também por apresentar uma nova maneira de aprender, saindo da rotina. Alfabetizandos de outras turmas também ficaram muito interessados na possibilidade de conhecerem o museu. Estamos organizando uma nova visita, dessa vez com um número maior de alunos”, diz Roberta, acrescentando que a visita surtiu uma influência grande e muito positiva nos alunos, que incluíram citações sobre o passeio cultural nas redações que prepararam para o X Concurso de Redação da Alfabetização Solidária. “Quase todos falaram da visita nas redações. E mais do que isso, agora, sempre que inicio uma nova lição eles sempre me perguntam: ‘será que essa vai render passeio professora?’” conta sorridente.
Francisca Roberta Feitosa Matos
26 anos – Aquiraz (Ceará)
(Novembro/2007)
Dedicação a toda prova
Estimular, auxiliar e também exigir são ações praticadas diariamente pela alfabetizadora Antonia Edvânia de Sousa, de 39 anos, em benefício dos alunos de sua sala de aula em Campos Sales, no Ceará. À frente de uma turma com 18 alfabetizandos, na faixa etária que vai dos 15 aos 76 anos, Edvânia, como é mais conhecida, enfrenta desafios que ora lhe exigem uma atitude de estímulo e apoio, ora uma posição mais firme para que o resultado seja alcançado.
Na comunidade de poucos recursos onde ensina, dois de seus alunos são deficientes auditivos e nunca tinham freqüentado as aulas. A comunicação entre alfabetizadora e alunos? Fácil: “eu procuro falar com eles sempre olhando para os dois, que fazem leitura labial e respondem normalmente”, conta a professora. Os dois alunos são irmãos, Francisca, 39 anos, e Maxilino Joaquim da Silva Fontana, de 42 anos. A alfabetizadora elogia o empenho dos irmãos em aprender.
“A Francisca tem uma caligrafia linda e o Maxilino, embora tenha mais dificuldade, já lê as palavras mais simples, mostrando uma evolução crescente”, conta ela, ressaltando que não os trata de forma “especial” para que eles não se sintam diferentes dos demais alunos da sala. Maxilino gosta muito de desenhar e pintar, atividades que Edvânia utiliza com freqüência para tornar o estudo mais gostoso e produtivo. “Faço também muita associação de imagens. Assim, se escrevo bola, mostro uma ilustração de uma bola e assim por diante”, detalha. Segundo ela, outras atividades que funcionam bem com seus alunos é a colagem e a elaboração de porta-retratos, montados com a utilização de revistas. A alfabetizadora, que concluiu o ensino médio, tem outra atividade durante o dia. Ela é agente de saúde da Prefeitura Municipal de Campos Sales e visita 286 famílias que moram na vizinhança de sua residência. “Vou de porta em porta conhecer as famílias e suas necessidades. Também acompanhamos o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos, analisando o peso e a estatura, para verificar se é preciso algum tratamento especial, como reforço alimentar”, destaca. Faz parte do trabalho de Edvânia, também, o acompanhamento às gestantes. Dessa proximidade de Edvânia com a comunidade veio o convite para tornar-se uma alfabetizadora.
Mesmo insegura pois “não sabia se tinha jeito para ensinar”, Edvânia aceitou o desafio. O resultado? Bem... ela gostou muito da experiência e o lucro foi dos alunos, que ganharam uma alfabetizadora dedicada.
Quem comprova o empenho de Edvânia é a coordenadora de Campos Sales, Maria Patrocínio dos Santos Maciel. Ela conta que o impacto positivo de Edvânia na vida de seus alunos é tão forte, que um deles até parou de beber por influência dela. “Ele era alcoólatra e um dia chegou bêbado para a aula”, conta a coordenadora. Edvânia pediu, então, que trancassem o portão e não o deixassem entrar, pedindo para avisá-lo que no dia seguinte ela iria à casa dele. “No dia seguinte, conforme prometera, a alfabetizadora foi à casa do aluno e, carinhosamente, porém firmemente, lhe disse que se ele quisesse continuar freqüentando as aulas dela, teria que parar de beber. E ele parou!”, destaca.
Para Edvânia, o trabalho que realiza como alfabetizadora é muito gratificante, uma vez que está auxiliando os alunos a fazer uma leitura do mundo. “Eu me identifiquei com a função, pois posso crescer por meio dela e também ajudar quem precisa”, finaliza.
(Outubro/2007)
Voltando a ser feliz!
"Antes da Alfabetização Solidária, eu só sabia assinar o meu nome", conta Aldina Maria da Conceição, 69 anos, sobre sua pouca experiência com os estudos. Nascida em Juazeiro do Norte, na Bahia, ficou órfão de mãe aos dois meses de idade. Criada pelo pai, cresceu ajudando-o com o trabalho na roça e devido à distância do centro da cidade, nunca teve a oportunidade de freqüentar uma escola. "Minha jornada de trabalho começava às seis da manhã e só terminava às cinco da tarde. Além de muito cansada eu não tinha como ir até o centro para estudar", relembra.
E assim Conceição foi levando seus dias até casar-se, em 1961, e ir morar com o marido no município de Missão Velha, no Ceará, onde também moravam seus sogros. Ela conta que na época ficou muito feliz e cheia de esperanças, pois acreditava que saindo da roça e indo morar na cidade conseguiria realizar o antigo sonho de aprender a ler e escrever. "Assim que me mudei consegui frequentar o Mobral, mas foi por pouco tempo, pois meu marido logo implicou! Ele não gostava que eu saísse de casa e eu tive de parar de estudar. Só consegui aprender a escrever meu nome".
Conceição então passou anos dedicando-se somente aos filhos, marido e aos afazeres da casa. "Na época tive de escolher entre manter meu casamento e estudar. Nunca me conformei com a situação, mas não tinha como mudá-la", lamenta.
Com o passar do tempo, porém, o casamento não deu certo e a separação foi inevitável. "Fiquei muito abalada, afinal, eu havia aberto mão dos meus sonhos pelo casamento e tudo acabou indo por água abaixo. Agora, além de não saber ler nem escrever, ainda era uma mulher separada, o que também não é nada fácil em uma cidade pequena", diz referindo-se ao preconceito que sentiu na época. Ela conta que achava que com a separação teria pelo menos a liberdade para fazer tudo o que sempre quis, incluindo, estudar. Mas, ao contrário do que imaginou, sentiu-se tão frustrada e envergonhada com a sua condição de separada que mal conseguia sair de casa. "No fundo me sentia tão presa quanto na época de casada, pois tinha muita vergonha de encontrar com as pessoas da cidade depois da separação devido aos boatos maldosos que sempre acontecem em cidades pequenas", explica.
Até que em 2006 recebeu a visita da alfabetizadora da AlfaSol Fatinha, que a convidou e insistiu para que se matriculasse no curso da Alfabetização Solidária que seria realizado no município em parceria com a Universidade Regional do Cariri. Além do tempo, que também se encarregou de ajudar a amenizar as dores e a vergonha, a visita de Fatinha foi o empurrão que faltava pra que Conceição levantasse a cabeça e seguisse em frente. "Coloquei para fora a coragem que parecia ter perdido, deixei os olhares maldosos de lado e me matriculei! Foi a melhor coisa que fiz, pois aos 68 anos de idade voltei a sentir alegria em viver", diz.
Cheia de perspectivas por finalmente estar realizando seu antigo sonho, Conceição está tão animada que agora jura que não deixará mais de estudar. E se depender de sua boa vontade isso certamente irá acontecer! Prova disso é que hoje já está cursando a 2ª série da do ensino fundamental - Educação de Jovens e adultos (EJA).
Ela conta que apesar do que sofreu, tudo valeu a pena pelos seus três filhos, hoje todos formados em cursos de nível superior. "Eles estão criados, vivem em São Paulo e levam uma boa vida. Já fiz a minha parte, agora é cuidar de mim, continuar estudando e viajando para visitá-los", diz, lamentando apenas o fato de não ter voltado a estudar assim que se separou. "Se tivesse voltado antes, talvez hoje seria professora", complementa. "Por enquanto, vou me realizando com o prazer e a alegria inexplicáveis que sinto ao conseguir ler um livro", completa muito animada.
(Agosto/2007)
Sala de aula peculiar
No coração