04/07/2008





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Redirecionando a carreira

 

Encarar um novo desafio. Esse foi um dos motivos que levou Elimar Gonçalves Santos Oliveira, de 43 anos, a inscrever-se como alfabetizadora do Projeto abcDF, mantido em parceria com a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal (GDF). “Já tinha participado por dois anos de outro programa de alfabetização, realizado pela Polícia Militar do Distrito Federal e pela Faculdade Cenecista de Brasília (FACEB), onde estudo Pedagogia. Uma de minhas professoras me contou sobre o abcDF e eu resolvi participar da seleção de alfabetizadores”, lembra.

 


Elimar conta que o primeiro desafio a ser vencido foi a diferença na forma de atuação entre os dois projetos. No abcDF, Elimar montou a própria sua turma e ajudou a viabilizar o espaço para ministrar as aulas. Nesse esforço, ela contou com a ajuda de amigos e vizinhos, que também a ajudaram na divulgação do curso. Até o padre que cuida da Paróquia do bairro foi um dos mais ativos colaboradores: além de divulgar o curso nas missas, cedeu uma sala para a realização das aulas. “As pessoas procuravam a secretaria da Igreja em busca de mais informações e também para fazerem suas inscrições. Só que eu fiz questão de estabelecer um método diferente: primeiro, os interessados deixavam o nome e endereço na Igreja e, depois, eu visitava cada um para efetivar a matrícula”, conta. Assim, ela já mantinha um contato com os alunos e ficava mais fácil garantir a presença deles nas aulas.

 


Quando o curso começou, Elimar procurou deixar as aulas bem dinâmicas, trabalhando a auto-estima de cada aluno. “Não é possível tratar o adulto como criança, nem infantilizá-lo. É preciso passar confiança e credibilidade, além de valorizar o que eles sabem”.


Por isso, em cada aula, ela reserva um tempo para tirar dúvidas, no qual os alfabetizandos podem perguntar o que quiserem. Antes de responder, ela sugere que eles busquem o significado da palavra no dicionário e depois é realizada uma troca de opiniões sobre o que encontraram. Com isso, os alunos acabam se interessando por temas diferentes e ampliando seus conhecimentos. “Os alunos têm aceitado bem tudo o que levo para a aula. Discutimos desde o aquecimento global até a importância de preservarmos nossas reservas de água”, exemplifica.


Nas aulas, ela também conta com o apoio de uma pequena biblioteca itinerante (uma mala de viagem com rodinhas), cedida pela Secretaria de Cultura do município. Os alunos escolhem os livros que desejam ler e, nesse processo, se quiserem, podem pedir para a alfabetizadora auxiliá-los na escolha do livro.


Ela destaca o apoio que obteve da Universidade Católica, instituição de ensino superior parceira, na condução das aulas. “Tive uma boa orientação da universidade, que sempre dá apoio e corrige o que é necessário, porém sempre com muito respeito pelo trabalho desenvolvido pelos alfabetizadores”, diz Elimar.
 

Para ela, a participação no projeto fez com que ela descobrisse uma vocação. Aluna do sexto semestre de Pedagogia na Faceb, ela já sonha em cursar a pós-graduação na Universidade de Brasília na área de Educação de Jovens e Adultos, já que, como ela mesma diz, identificou-se com o trabalho de EJA. “Tenho trabalhado nesse sentido e estou desenvolvendo um artigo na área de sócio-linguística”, explica. “Tenho muita vontade de dividir o conhecimento que adquiri com as outras pessoas”, conclui.
 

(Abril 2008)



Iluminada pela educação


A vida de D. Celestina Ribeiro de Oliveira pode até ter começado como a de muitos brasileiros. Mas até hoje, aos 55 anos, ela faz tudo o que pode para fazê-la diferente. Nascida em Santa Rita de Cássia, na Bahia, D. Celestina era de uma família grande, com nove irmãos, que, juntos, ajudavam os pais na lavoura para o sustento da casa. “Desde pequena, tive que pegar na enxada para ajudar meus pais. Nós plantávamos milho, filho, feijão, arroz, e criávamos porcos e galinhas”, recorda. A escola era longe e, assim como ela, os irmãos também não estudara. Quando tinha 20 anos, deixou Santa Rita de Cássia para tentar a sorte em Brasília. Logo que chegou, conheceu seu marido e casou-se.


O trabalho consumiu, então, todo o tempo do casal, que não teve filhos. “Meu marido era funcionário público aposentado e, para complementar a renda, trabalhávamos em feiras, bares”, diz ela.


Depois de um tempo, adquiriram um pequeno pedaço de terra no distrito de Alvorada do Norte, em Goiás, onde permaneceram até o falecimento de seu marido, há 10 anos. “Desde então, acabei desistindo da plantação, vendi tudo o que tinha em Goiás e voltei para Brasília, onde vivo até hoje”, conta.

A oportunidade de estudar chegou em 2007, quando soube do Projeto abcDF, uma parceria da Alfabetização Solidária e do Governo do Distrito Federal. Desde que começou o curso, D. Celestina não perde uma aula. “Eu me sinto como uma criança que está aprendendo a engatinhar e logo estará correndo!”, afirma ela. Hoje, D. Celestina já consegue ler a Bíblia, uma das coisas que ela mais tinha vontade de ler. A continuidade dos estudos é uma realidade para ela, que quer aprender mais e mais. “A educação é o melhor caminho. Por ela, você enxerga, se torna mais alegre, mais firme. Antes, eu estava no escuro”, conclui.


(Abril 2008)

 


Em busca de novas oportunidades


A falta de leitura e de escrita fez o Sr. Bonifácio Mendes da Silva, de 60 anos, perder muitas oportunidades na vida. Isso porque, no município de Prata do Piauí (PI), onde ele nasceu e cresceu, estudar não era considerado prioridade. “Eu até cheguei a freqüentar a escola, mas como ainda era uma criança preferia me divertir no campo cuidando do gado e dos outros animais da fazenda do que sentar num banco para estudar”, relembra. Na ocasião, Bonifácio morava com o avô materno, que teve a permissão dos pais dele para criar o neto. “Eu fui o mais velho de 24 irmãos, sendo onze do primeiro casamento do meu pai e os outros 13 do segundo”.

Quando tinha entre 15 e 16 anos, um dos tios, que também morava na fazenda, contratou um professor para dar aulas para Bonifácio, mas ele não teve interesse e não deu importância para a iniciativa do tio. “Depois, com 23 anos, eu me casei, mas mesmo assim continuei residindo com meu avô e meu tio por mais cinco anos”, recorda.


Somente em 1980, quando, juntamente com a esposa, decidiu tentar a sorte em Brasília, foi então que Bonifácio começou a sentir a falta que o estudo faz. Seu primeiro emprego foi no Ceasa, onde embalava cebolas, batatas e outros alimentos. Ficou por dois anos. Em seguida, conseguiu outro emprego em uma empresa que comercializava frutas e a dura jornada de trabalho, de segunda a sábado, das 3h00 às 22h00, consumia toda a sua energia. “Mas era preciso, porque a família cresceu e eu já tinha cinco filhos”, conta. Anos atrás, quando seu chefe se aposentou, Bonifácio poderia ter assumido o cargo dele, mas, por não saber ler e escrever, a vaga foi oferecida a outro colega. “Nessa ocasião, descobri como estudar é importante e como atrapalhou minha vida não saber ler e escrever”, diz.


Devido a uma política pública de distribuição de lotes implantada pelo Governo do Distrito Federal, Bonifácio ganhou um terreno. “E, como contava com mais de 10 anos de trabalho na empresa, fiz um acordo trabalhista e, com o que recebi, construí minha casa, onde moro até hoje”, relata.


Atualmente, Bonifácio trabalha em feiras nos finais de semana e, por contar com tempo livre, resolveu aceitar o convite da coordenadora Marileide Alves para participar da 1ª etapa do Projeto abcDF - uma parceria entre a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal - iniciada em outubro de 2007. E hoje já nota os avanços: “Consigo ler, fazer contas e já escrevo tudo o que a professora escreve no quadro”. Em breve, Bonifácio começará a trabalhar em um novo emprego e está torcendo para encontrar uma escola próxima a de sua residência, que ofereça cursos de EJA, para dar prosseguimento à sua educação. “Estudar é bom e, devagarzinho, vou aprendendo o que preciso. O importante é nunca mais perder boas oportunidades de emprego por causa da falta de estudo”, finaliza.


(Abril 2008)



Superando o medo de aprender


“A melhor coisa que me aconteceu foi ter feito esse curso de alfabetização”. A afirmação vem do Sr. Antonio José Almeida, de 60 anos, nascido no município baiano de Correntina, mas morador de Brasília, Distrito Federal, há mais de 30 anos. Segundo Sr. Antonio explica que, por várias vezes, tentou continuar os estudos, mas acabava desistindo, pois sentia muita dificuldade para aprender Matemática. “Eu não conseguia entender e isso me desestimulava tanto que eu tratava e deixava de estudar”, conta ele, que só conseguiu concluir o 1º segmento do ensino fundamental. “E já faz tanto tempo que esqueci o pouco que aprendi. Eu acabei valorizando muito mais o trabalho do que o estudo, mas sempre soube de sua importância. É o primeiro caminho que temos de percorrer na vida”, explica.


Casado por duas vezes, Sr. Antonio teve onze filhos e mudou-se para Brasília por conta de um problema de saúde enfrentado por uma de suas filhas. Antes de se mudar de Correntina, ele trabalhava comprando e revendendo grãos, como arroz, feijão e milho, mas largou tudo para cuidar da saúde da filha, que, como ele mesmo diz, hoje está casada e feliz. “Porém, depois que ela ficou boa, ninguém mais quis voltar para a Bahia e decidimos ficar aqui em Brasília mesmo”.


Para sobreviver e criar os filhos em Brasília, Sr. Antonio, então, passou a trabalhar fazendo de tudo um pouco. “Só não lavei banheiros”, brinca. Trabalhou como ajudante em diversas construções e até como vigilante. Hoje, já aposentado, Sr. Antonio ainda trabalha realizando uma ação social importante.  Ele auxilia alguns empresários da região a distribuir alimentos para as pessoas carentes moradoras do Distrito Federal e Goiás. “Distribuo diariamente mais de 130 toneladas de batatas por dia, nos municípios de Santa Maria, São Sebastião, Paranoá, Águas Lindas, Taguatinga, Ceilândia, entre outras. Fiquei até conhecido como o Antonio das Batatas”, brinca.


E foi justamente neste trabalho social, na qual Sr. Antonio tem mais contato diário com as pessoas, é que ele sentiu mais a falta que os estudos faz. Além disso, a distribuição de alimentos será feita por meio de um cadastro de cada família beneficiada e ele será responsável pelo levantamento desses dados.


Foi o estímulo que faltava para que Sr. Antonio decidisse se matricular em uma das turmas da primeira etapa do Projeto abcDF, uma parceria instituída entre a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal. Com cerimônia de conclusão marcada para abril próximo, Sr. Antonio comemora, feliz, os avanços conquistados. “Além de assinar documentos, agora posso ler o conteúdo deles, coisa que antes não fazia. Também tinha que pedir sempre para alguém ler as cartas que recebia e, às vezes, as pessoas não podiam ler para mim por estarem ocupadas. E, quando liam, acabavam tendo acesso a informações pessoais, que eu não gostaria que soubessem”, conta.


Agora seu maior desejo é prosseguir com os estudos, inclusive ele já tem vaga garantida em EJA. “Agradeço muito por essa oportunidade de voltar a estudar que o Projeto abcDF me proporcionou e o indico para todos aqueles que conheço”, diz ele, acrescentando que mais de 30 conhecidos passaram a freqüentar o curso depois que ele os convidou. “Assim como consegui uma coisa boa, quero que os outros também tenham a mesma oportunidade”, finaliza.


(Abril 2008)



Descobrindo o prazer de estudar


Estudar nunca esteve entre os planos de Francelina Soares dos Santos, de 59 anos, apesar dos esforços de sua mãe para manter os filhos na escola. “Eu não gostava de estudar e, entre meus irmãos, fui a única que não levou os estudos adiante”, afirma. Nascida em Mansidão, na Bahia, Francelina veio para Ceilândia, no Distrito Federal, aos 15 anos, para tratar de um problema de saúde que tinha na pele. “Vim para o tratamento e acabei ficando de vez”, conta.


Desde então, começou a trabalhar como diarista em casas de família e, aos 19 anos, casou-se. Teve nove filhos, dos quais sete estão casados e dois, solteiros, ainda moram com ela. Por causa da criação dos filhos e do trabalho como diarista, não sobrou tempo para Francelina pensar em mais nada, embora tivesse surgido, há algum tempo, uma vontade de voltar a estudar. “Mas ficou só na vontade”, afirma ela.


O tempo passou e, no ano passado, uma das filhas a inscreveu no Projeto abcDF, desenvolvido pela Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal. Começou a freqüentar as aulas da primeira etapa do projeto e adorou o curso. “Antes eu achava tudo muito difícil, mas estou me esforçando para aprender e sei que já melhorei bastante”, conta.


Ela explica que sabia um pouquinho, mas não conseguia ler tudo o que queria. “Já melhorei bastante e consigo ler tudo o que aparece. Inclusive, já escrevo pequenos textos, sem necessidade de copiar da lousa”. O fato de o curso ser perto da escola funciona como outro estímulo importante para ela. “Sempre tive que trabalhar, fazendo jornada dupla até tarde da noite e acordando cedo no dia seguinte. Então, poder voltar cedo para casa é ótimo”, diz ela, acrescentando que as aulas acontecem das 19h00 às 21h00.


A família dá o maior apoio para que ela continue estudando. A torcida agora é para que Francelina consiga prosseguir seus estudos de EJA em uma escola próxima de sua residência.


(Abril 2008)

 


 

Sempre há tempo para aprender

 


O trabalho na terra, as dificuldades do sertão, a pobreza e a distância da escola foram fatores que impediram que o Sr. Agostinho Vieira da Silva, de 76 anos, estudasse quando menino. Nascido no município piauiense de Floriano, a 180 km da capital, Sr. Agostinho desde cedo trabalhou na lavoura para ajudar os pais. “Com 10 anos, cheguei a freqüentar a escola, mas não aprendi nada e acabei parando”, lembra. Parte dessa falta de interesse pode ser creditada aos rigores do ensino da época. Ele conta que os alunos tinham que aprender a lição assim que era explicada. “Caso contrário, nós, literalmente, apanhávamos da professora”, explica ele, acrescentando que nomeia esse período como “tempo do atrasado”. Por isso, segundo Sr. Agostinho, assim que os alunos arrumavam um trabalho para receber alguns trocados, deixavam imediatamente a escola, que não oferecia nenhum atrativo. Para completar, havia uma valorização do trabalho braçal e as pessoas não compreendiam a importância do estudo.

 


E assim o tempo passou. Sr. Agostinho trabalhou na lavoura, no plantio de grãos, cana-de-açúcar... Aos 18 anos, mudou-se para Barão de Grajaú, no Maranhão, e, logo em seguida, para São João dos Patos, no mesmo Estado. Aos 25 anos, ele se casou e, em 1962 mudou-se para Brasília “em busca de uma vida melhor”. Morou lá por cinco anos, trabalhando em empresas de urbanização instaladas na cidade recém-inaugurada, e, em seguida, foi com a família, esposa e quatro filhos, para Goianésia, onde permaneceu por 13 anos. De volta à Brasília, Sr. Agostinho aproveitou sua experiência em lavouras e na empresa de urbanização e passou a trabalhar como jardineiro.


Há 30 anos conseguiu comprar sua casa, hoje já quitada. Mesmo assim, ele continuou a trabalhar até os 70 anos, quando finalmente se aposentou. Com a aposentadoria, veio o tempo que ele nunca teve para estudar. Matriculou-se em uma das turmas do Projeto abcDF, desenvolvido em parceria com a Alfabetização Solidária e o Governo do Distrito Federal, que acontece na Ceilândia. “O curso está sendo muito bom para mim. A professora é muito paciente”. A velocidade do aprendizado não o assusta. “O tempo de aprendizado varia de pessoa para pessoa: alguns têm mais facilidade para aprender, outros têm dificuldade. O importante é continuar estudando”, defende.


Seus filhos também estão todos concluindo os estudos e moram em Brasília. Ele gosta muito da capital federal, uma vez que a considera cheia de oportunidades. “É muito nova, não tem nem cinqüenta anos, e, assim, podemos crescer juntamente com a cidade”, acredita Sr. Agostinho.

Agora próximo de receber o primeiro certificado de sua vida, Sr. Agostinho diz pretender continuar estudando. “Quero aprender ainda mais a fazer contas, pois sempre fui contra o uso de calculadora”, defende.


(Abril 2008)

 


Respeito e valorização das diferenças culturais na aldeia Porto Lindo, Japorã (MS)


Em um país tão extenso e tão rico culturalmente como o Brasil, valorizar a equidade e atentar à diversidade é fundamental, principalmente quando o assunto é educação. Baseada nessa premissa, a Alfabetização Solidária amplia o acesso a leitura e a escrita em diversas comunidades sempre respeitando ao máximo a diversidade cultural brasileira através da valorização das manifestações culturais tradicionais de cada localidade atendida. É o caso do município de Japorã (MS) onde a AlfaSol, em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e Enersul, atende a comunidade indígena da aldeia Porto Lindo.

Situada na zona rural do município, a Aldeia de Porto Lindo é uma reserva indígena onde foram concentradas comunidades vindas de diversos lugares, após serem expulsas de suas terras pela expansão agropecuária e a destruição das matas restantes na região. Atualmente, mais de quatro mil índios das etnias guarani e kaiuá moram em Porto Lindo. Segundo a coordenadora pedagógica da UCDB, Angela Cristina Catonio, a melhoria das condições de vida é uma das implicações indiretas da atuação da AlfaSol na comunidade. "Ler e escrever não é simplesmente decodificar símbolos, mas exercer a cidadania e preservar os costumes", conta.

Embora o português seja falado pela maioria dos índios da aldeia, alguns alunos das salas de alfabetização se comunicam apenas em guarani, que é a língua materna. Angela conta que na capacitação foi discutido que o guarani e os conhecimentos que contém seriam valorizados durante todo o processo de alfabetização, assim como oportunizado o acesso a língua portuguesa, de forma a valorizar as duas línguas. "No decorrer da capacitação elaboramos vários materiais didáticos para auxiliar na prática pedagógica em sala de aula", lembra a professora da UCDB, Rosa Colman, especialista em comunidades indígenas, que participou de uma das capacitações dos alfabetizadores de Japorã a convite da professora Angela.

Durante as capacitações também foram debatidos com os alfabetizadores temas como localização territorial, importância da alfabetização, comunicação falada e escrita, planejamento de aula, entre outros. Essa é a primeira vez que a AlfaSol atua nessa comunidade e as aulas devem finalizar em abril. "Ainda desenvolveremos muitas atividades com eles, mas já podemos perceber que a receptividade está sendo muito boa, os alfabetizadores e os alunos estão muito empenhados.

Está sendo uma experiência muito interessante!", diz Ângela. As mudanças que a AlfaSol está trazendo para a comunidade e as conseqüências de sua atuação já são sentidas e valorizadas. "Tanto para os alunos, quanto para os alfabetizadores, o trabalho desenvolvido pela Alfabetização Solidária já está resultando em novos conhecimentos, além de uma maior conscientização da importância da preservação da sua cultura", ressalta Ângela.

Aliás, a preocupação com a valorização da cultura indígena está sempre presente, desde as capacitações até as atividades desenvolvidas em sala de aula.
"Realizamos atividades com os alfabetizadores para que eles possam aplicar com os seus alunos, sempre atentos as suas tradições. Em uma das capacitações levamos livros em guarani para leitura e discussão, e desenvolvemos um exercício no qual cada alfabetizador desenhou um animal e escreveu sobre ele em guarani. No final, esses relatos resultaram em um pequeno livro!", relata Angela.

Outro ponto importante desse trabalho na comunidade é a inserção dessa população indígena no mundo fora da aldeia, respeitando as diferença e valorizando a sua cultura. "Muitos adultos guaranis que são analfabetos sentem dificuldades para transitarem no mundo dos não índios, por não dominarem os códigos da escrita da Língua Portuguesa. Para eles é uma questão de autonomia ter a oportunidade de ter uma noção da escrita. E a Alfasol é imprescindível neste processo, por contribuir com essas populações que sempre foram muito marginalizadas em todos os sentidos e também no âmbito educacional".

(Março/2008)


Com os estudos, maior autonomia 

A trajetória de vida de Maria Dantas da Silva impediu que, quando criança, ela pudesse estudar. Para ajudar o pai, lavrador, no trabalho que garantia o sustento da numerosa família – oito irmãos no total -, a escola teve que ser deixada de lado. “Na época, morávamos em Santana do Mato, no Rio Grande do Norte, onde nasci, e não existia escola perto de casa. Era tudo muito difícil”, recorda D. Maria, hoje com 70 anos. Na época, o único contato que ela teve com a alfabetização foi por meio  de um de seus irmãos, que havia mudado para a cidade e ensinou a ela algumas letras. “Ele foi morar na cidade e conseguiu estudar, mas, apesar da boa vontade dele, não dava para aprender muito, porque ele só vinha nas férias . Mas como eu trabalhava na lavoura não tinha tempo nem para me lembrar disso”, conta.

E  assim ela foi levando a vida. Quando completou 13 anos, uma forte seca  atingiu o município de Santana do Mato  por sete anos,  fazendo com que seu pai decidisse mudar com a família para Santa Rosa, no Maranhão. Porém,  a mudança ainda não significou  seu acesso aos estudos. Com 18 anos, mudou para Pedreiras, outro município maranhense, e começou a trabalhar como auxiliar de costureira, caseando e pregando botões. Foi nesta cidade que Maria, aos 22 anos, conheceu seu marido e  junto com ele acabou voltando para a lavoura onde criou seus dois filhos.

Passados 18 anos,  com os filhos já crescidos, a família decidiu mudar-se para São Luís para buscar uma vida melhor. “Foi então que conheci Rosireni Santos Monteiro, alfabetizadora da Vale Alfabetizar, que me  convidou para participar do curso de alfabetização que iria acontecer na casa dela. Comecei devagarzinho e hoje estou indo muito bem”, comemora. A família deu muita força, principalmente seu marido, que sabe ler. Para ela, os ganhos advindos dos estudos são inegáveis , mas o principal deles foi a maior autonomia. “Antes eu tinha dificuldade  até para ir  sozinha ao supermercado.  Agora ganhei mais  autoconfiança e  vou desacompanhada sem problemas”, conta, destacando também as novas amizades que  fez durante o curso. “Foi muito bom ter tido essa oportunidade”, conclui.

(Fevereiro/2008)


De filho para pai: o valor da educação em família

Na vida, boa parte da educação e dos ensinamentos que adquirimos ao longo de nossa história pessoal vem dos nossos pais. Muito dessa premissa se aplica à família de Milton Alexandre da Silva, 60 anos, que mesmo sem saber ler e escrever estimulou seus 10 filhos a estudar e ensinou a eles o valor da educação.

Desde pequeno trabalhando na roça, faltou tempo e oportunidade para freqüentar os bancos escolares. Sem nunca ter pisado em uma sala de aula, Milton conta que uma vez aprendeu a escrever seu nome, mas como não praticava acabou esquecendo. “Quando eu era jovem, uma amiga chegou a me ensinar e na época até tirei meus documentos assinando!”, relembra.

Nascido em Arapiraca (AL), depois de passar por vários municípios da região, acabou se envolvendo com o movimento dos sem-terra e hoje conquistou seu próprio terreno em um assentamento em Traipu (AL). “Casei, formei família e dei a todos os meus filhos a oportunidade de estudar. Hoje, tenho dois filhos professores, que fizeram faculdade. Tem também o José Carlos, que é alfabetizador da AlfaSol e me levou até a sala de aula!”, conta.

Isso mesmo! Nessa família a educação também vem de filho para pai. “Quando fiquei sabendo que existiam vagas para alfabetizadores aqui em Traipu, imediatamente fui me inscrever, vi na oportunidade a chance de realizar meu sonho de ser professor! Também fiz questão de estimular meu pai a estudar, tinha certeza que comigo ele aprenderia. Além disso, era uma forma de eu retribuir o apoio que ele sempre me deu”, se orgulha José Carlos dos Santos Silva, 25 anos.

E aprendeu mesmo, com muito esforço tanto do aluno quanto do alfabetizador, pois ambos trabalham na roça durante o dia. “Assim que comecei a dar aulas percebi que meus alunos tinham mais facilidade em aprender os números do que as letras, porque os números já faziam parte da rotina deles”, conta o alfabetizador.

A fim de facilitar o aprendizado de seus alunos e evitar a evasão, José Carlos usou de sua criatividade para realizar uma atividade interessante em sala de aula, na qual procura mesclar letras e números. “É bem simples, escrevo uma palavra e classifico cada letra com um número. Depois, dou uma seqüência de números que representam uma palavra, assim eles associam os números com as letras e escrevem novas palavras. Mais ou menos como aquelas atividades que existem em revistas de palavras cruzadas”, explica. Segundo ele, a tática deu tão certo que seus alunos já estão escrevendo e gostam muito de freqüentar as aulas. “Eles até disputam ditado!”.

José Carlos também gostou muito da experiência em sala de aula e não pretende parar. Ao contrário, cheio de expectativas pretende continuar seus estudos e fazer faculdade de história, mesmo com todas as dificuldades que enfrenta. “Depois de passar o dia todo trabalhando na roça, ainda tenho muita disposição para ir à sala de aula no final do dia  e a felicidade de ver a evolução dos alunos me enche de força de vontade!”, justifica.
 
(Fevereiro/2008)
  
 
Primeiro passo de uma vida inteira

Um primeiro passo. Assim como para os seus alunos, para a alfabetizadora Janielma da Silva Pereira, 21 anos, a Alfabetização Solidária também representou o início de uma longa jornada. Nascida em Traipu (AL), ela sempre morou na zona rural do município, afastada das oportunidades educacionais da cidade.

Filha caçula de uma família de nove irmãos e apenas a mãe para tomar conta de todos, ela não escapou do trabalho na agricultura. “Acordo bem cedo, vou buscar água - porque aqui não tem água encanada - e na época da colheita também ajudo na roça”, afirma.

Mas nem essa distância física e a dura rotina fizeram com que desanimasse. Ela já está finalizando o ensino médio e pretende fazer curso pré-vestibular para conseguir ser aprovada no vestibular para educação física na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), no campus de Arapiraca. “Tenho muita vontade de mudar de Traipu e conquistar todos os meus sonhos”, conta.

Quem vê a garra que Janielma demonstra ao falar, não imagina todas as dificuldades que enfrentou. “A minha mãe era muito rígida, não me deixava freqüentar a sala de aula. Aos oito anos eu acompanhava meus irmãos até a escola escondida, sem matrícula, tinha muita vontade de estudar!”, lembra.

A mesma força de vontade que fez Janielma insistir com a mãe até que fosse matriculada na escola, também fez com que ela procurasse o secretário de educação de Traipu para obter mais informações sobre a AlfaSol. “Sempre ouvia falar da Alfabetização Solidária, muita gente comentava sobre os benefícios que trazia para as pessoas. Tinha muita vontade de conhecer e fazer parte”.

Nessa visita à Secretaria Municipal de Educação, ela descobriu que poderia ser alfabetizadora. Tímida, Janielma conta que no início sentiu insegurança sobre como seria sua atuação em sala de aula. “Nesse sentido, a capacitação foi essencial, aprendi muito. Tinha muita força de vontade para ensinar, mas não sabia exatamente como fazê-lo!”, lembra.

No primeiro dia em sala de aula como alfabetizadora, não conseguia acreditar que estava realizando seu sonho. “Senti um misto de felicidade e nervosismo. Entrei na sala tremendo... Mas hoje já tenho a certeza de que quero muito continuar alfabetizando”, diz.

Os alunos de Janielma sentem o mesmo. Com uma sala de aula composta por estudantes jovens, entre 15 e 30 anos, ela representa um exemplo de determinação e força de vontade. “Acho que esse reconhecimento dos meus alunos é resultado de um trabalho que foi feito com muito carinho”, orgulha-se.

Dedicada aos estudos e a sala de aula, ela diz que não sobra muito tempo para sua vida pessoal. “Não consigo nem namorar... mas também penso que é melhor terminar os estudos para depois pensar em algo mais sério”, diverte-se. E assim, Janielma segue em busca do seu sonho e diz que não vai desistir quando surgirem obstáculos. “A AlfaSol representou um primeiro passo para a minha vida, foi uma experiência inesquecível que me mostrou que eu tenho capacidade de realizar muita coisa e de superar tudo!”.
 
(Fevereiro/2008)


Na porta do céu!
 
“Se tivesse tido  a oportunidade de estudar quando  mais jovem, hoje seria um advogado”. A afirmação contundente vem do Sr. Agnel da Silva Ferreira, que  somente agora, ao completar 88 anos,  pôde aprender a ler e escrever. Ele foi um dos formandos de uma turma de 225 jovens e adultos  que conseguiram concluir o curso de alfabetização inicial oferecido no município de Curionópolis, no Pará, pelo Vale Alfabetizar, uma parceria da Fundação Vale e Alfabetização Solidária.

Nascido em São Luis Gonzaga de Campo Maior, no Piauí, Sr. Agnel  explica que não estudou quando criança, pois morava e trabalhava na zona rural e a escola ficava na cidade. "Era uma época muito atrasada! Tudo ficava muito distante e meus pais também não puderam nos ensinar nada pois trabalhavam na lavoura e não chegaram a estudar. Quando conheci o mundo, já era tarde”, lembra.
O tempo foi passando e, sem estudo, não restou ao Sr. Agnel outra opção a não ser  continuar se dedicando ao trabalho na lavoura. E foi cuidando de plantações de arroz, milho, feijão e mandioca, por mais de 40 anos, que ele encontrou condições  de  criar os 35 filhos que teve  durante em seus quatro casamentos. 

Em 2007, já aposentado e morando em Curionópolis, no Pará, Sr. Agnel  recebeu o convite da alfabetizadora Núbia Darc de Jesus Araújo  e matriculou-se no curso de alfabetização promovido pelo Vale Alfabetizar.

Hoje, após freqüentar as aulas, ele mesmo avalia a evolução de seu aprendizado. “Estou escrevendo bem  e também já faço muitas contas", comemora ele, lamentando somente o fato de não ter tido a oportunidade um pouco antes.  "Se hoje eu tivesse pelo menos 50 anos teria uma memória  melhor e aprenderia com mais facilidade. Com certeza eu poderia ter ido mais longe e até, quem sabe, ter frequentado uma universidade”,   conta , creditando todo o progresso que obteve em seu aprendizado à  alfabetizadora Núbia . "Ela realmente explicava muito bem e, mais importante, tinha muita calma e paciência com a gente". 

Mas Sr. Agnel também faz questão de destacar que "o presente que ganhou durante o curso" também foi fundamental no processo de seu aprendizado. Ele refere-se aos óculos que recebeu do Projeto Ver, também uma parceria entre a Fundação Vale e a AlfaSol , que oferece consultas oftalmológicas e óculos gratuitamente com o objetivo de proporcionar melhor qualidade de vida e condições de aprendizado aos jovens e adultos matriculados no curso. “Tinha dificuldades em enxergar e agora esse obstáculo foi vencido . Eu chamo os óculos de presente pois eles não me auxiliaram somente na sala de aula, mas em todos os momentos da minha vida”, diz ele. E conclui: “O Vale Alfabetizar me ajudou  a ser mais feliz. Parece que  agora as portas do céu se abriram para mim” .

(Fevereiro/2008)


Partilhando experiências na sala de aula

No Programa Grandes Centros Urbanos (PGCU) de Salvador, na Bahia, três alfabetizadoras, que também são agentes de saúde municipal, resolveram partilhar com os alunos um pouco das informações adquiridas em suas experiências profissionais. Tratam-se das alfabetizadoras Rosa Maria Soares da Cruz, Djaci Oliveira Barcelos e Maria da Conceição de Santana Ferreira, responsáveis pela alfabetização de quase 100 alunos na Escola Municipal Risoleta, localizada no bairro Saramandaia. Elas incluíram nas atividades do curso de alfabetização palestras sobre temas diversos, como higiene, hipertensão arterial e doenças sexualmente transmissíveis, além da exibição de filmes, como “Vem dançar” e “Dois filhos de Francisco - a história de Zezé de Camargo e Luciano”.  “Acreditamos que temos o dever de orientar os alunos para que eles reúnam informações no intuito de tomar atitudes adequadas”, explica a alfabetizadora Djaci. 

Elas procuraram trabalhar com temas transversais ao curso, principalmente aqueles que se mostraram mais necessários em relação à realidade apresentada pela sala de aula. A região tem, por exemplo, muitos casos de prostituição, além de doenças diversas, como a hipertensão arterial e aquelas que são sexualmente transmissíveis. Segundo as alfabetizadoras, a maioria dos alunos, integrada por donas-de-casa, profissionais liberais, trabalhadores da construção civil e aposentados, jamais havia recebido esse tipo de informação. “Alguns temas, como DST, são cercados de preconceitos”, conta Djaci. Ela explica que os alunos têm, geralmente, a falsa idéia de que os problemas das DST só atingem determinadas partes do corpo, não tendo a menor noção das conseqüências que podem surgir caso não sejam corretamente tratadas, e muito menos que os infectados acabam transmitindo doenças para outras pessoas. “Eles também não sabem usar camisinhas e, por isso, a falta de informação deles é um fator de risco para outras pessoas”, diz Djaci.

Para dar uma melhor explicação sobre os assuntos, as alfabetizadoras reuniram as turmas durante as palestras, realizadas uma vez por mês, e utilizaram materiais ilustrativos, como fotos da evolução das DSTs em pessoas que não foram tratadas. “Eles ficaram espantados com as conseqüências quando viram o resultado da ação da doença”, acrescenta Djaci. Outra descoberta importante, destacada pela alfabetizadora Rosa Maria, é que muitos dos alunos perceberam que, além das doenças não serem curadas com qualquer tratamento, é preciso adotar medidas preventivas para combatê-las.

Já os filmes foram utilizados para discutir a semelhança entre a história abordada e a realidade dos alunos. “Durante os encontros, procuramos dar total abertura para que os alunos pudessem conversar, opinar e ou esclarecer dúvidas sobre os temas enfocados”, detalha Djaci.

Apesar do impacto positivo na vida de alguns alunos, que procuraram médicos e decidiram fazer exames para detectar algumas doenças, as alfabetizadoras perceberam que muitos deles não estavam preparados para discutir alguns dos temas abordados, como as DST. “O assunto ainda é um tabu para eles”, acredita Rosa Maria. As alfabetizadoras contam que muitas vezes ficaram surpresas com as curiosidades e as questões levantadas pelos alunos, principalmente quando se leva em conta que são adultos.

Para elas, os encontros tiveram um resultado maravilhoso, uma vez que cumpriram com a missão de transmitir conhecimentos que os alunos podem adotar em suas vidas. “O ensino”, conforme explica Rosa Maria, “tem a ver com isso. Os alunos precisam saber o que está acontecendo no mundo e descobrir a vida”.

(Novembro/2007)


Excursão Solidária

No município de Aquiraz, interior do Ceará, a alfabetizadora Francisca Roberta Feitosa Matos, 26 anos, decidiu ir além da importante tarefa de ensinar jovens e adultos a ler e escrever suas primeiras palavras e foi mais longe: organizou, com entusiasmo de seus alunos, uma visita ao Museu Memorial da Liberdade, na cidade vizinha de Redenção, a primeira no país a dar alforria aos escravos africanos, pondo fim ao sistema escravocrata no Brasil.

Estudante do quinto semestre do curso de história na Universidade Vale do Acaraú (UVA), Francisca explica que a idéia de levar seus alunos para conhecer um pouco mais sobre a história da escravidão no Brasil surgiu quando visitou o museu com sua turma da faculdade. “Durante a visita, imediatamente pensei que seria interessante levar meus alunos para conhecer o local, que ainda detém muitos símbolos que remetem à época da escravidão, como pelourinhos, senzalas e até roupas” diz.  Ela conta que, ao ministrar uma das aulas para sua turma, com faixa etária entre 32 e 61 anos, ela comentou da possibilidade de visitarem o local histórico, situado a 200 km de distância da sala de aula. “Eles ficaram eufóricos. Foi aí que descobri que nenhum deles havia deixado o município de Aquiraz em suas vidas. Essa seria a primeira vez que eles fariam um passeio cultural e a primeira vez que conheceriam outra cidade”, conta Roberta que diz ter ficado surpresa com o enorme interesse que os alunos demonstraram também durante a visita. “Chegamos bem cedinho, pouco antes de o museu abrir. Quando as portas se abriram já havia um funcionário do museu para guiar nossa visita. Eles ficavam perguntando, indagando, investigando tudo. Tiraram tudo que podiam do guia que nos acompanhava”, conta orgulhosa da turma.

Roberta sabe da influência e responsabilidade que teve sobre seus alunos, e diz que ao observar as reações da turma sentiu-se engrandecida. “Pra mim foi muito gratificante poder proporcionar para eles algo que nunca fizeram na vida. Não só pelo apelo cultural da visita, mas também por apresentar uma nova maneira de aprender, saindo da rotina. Alfabetizandos de outras turmas também ficaram muito interessados na possibilidade de conhecerem o museu. Estamos organizando uma nova visita, dessa vez com um número maior de alunos”, diz Roberta, acrescentando que a visita surtiu uma influência grande e muito positiva nos alunos, que incluíram citações sobre o passeio cultural nas redações que prepararam para o X Concurso de Redação da Alfabetização Solidária. “Quase todos falaram da visita nas redações. E mais do que isso, agora, sempre que inicio uma nova lição  eles sempre me perguntam: ‘será que essa vai render passeio professora?’” conta sorridente.

Francisca Roberta Feitosa Matos
26 anos – Aquiraz (Ceará)

(Novembro/2007)

 
Dedicação a toda prova

Estimular, auxiliar e também exigir são ações praticadas diariamente pela alfabetizadora Antonia Edvânia de Sousa, de 39 anos, em benefício dos alunos de sua sala de aula em Campos Sales, no Ceará. À frente de uma turma com 18 alfabetizandos, na faixa etária que vai dos 15 aos 76 anos, Edvânia, como é mais conhecida, enfrenta desafios que ora lhe exigem uma atitude de estímulo e apoio, ora uma posição mais firme para que o resultado seja alcançado.

Na comunidade de poucos recursos onde ensina, dois de seus alunos são deficientes auditivos e nunca tinham freqüentado as aulas. A comunicação entre alfabetizadora e alunos? Fácil: “eu procuro falar com eles sempre olhando para os dois, que fazem leitura labial e respondem normalmente”, conta a professora. Os dois alunos são irmãos, Francisca, 39 anos, e Maxilino Joaquim da Silva Fontana, de 42 anos. A alfabetizadora elogia o empenho dos irmãos em aprender.

“A Francisca tem uma caligrafia linda e o Maxilino, embora tenha mais dificuldade, já lê as palavras mais simples, mostrando uma evolução crescente”, conta ela, ressaltando que não os trata de forma “especial” para que eles não se sintam diferentes dos demais alunos da sala. Maxilino gosta muito de desenhar e pintar, atividades que Edvânia utiliza com freqüência para tornar o estudo mais gostoso e produtivo. “Faço também muita associação de imagens. Assim, se escrevo bola, mostro uma ilustração de uma bola e assim por diante”, detalha. Segundo ela, outras atividades que funcionam bem com seus alunos é a colagem e a elaboração de porta-retratos, montados com a utilização de revistas. A alfabetizadora, que concluiu o ensino médio, tem outra atividade durante o dia. Ela é agente de saúde da Prefeitura Municipal de Campos Sales e visita 286 famílias que moram na vizinhança de sua residência. “Vou de porta em porta conhecer as famílias e suas necessidades. Também acompanhamos o desenvolvimento de crianças de zero a cinco anos, analisando o peso e a estatura, para verificar se é preciso algum tratamento especial, como reforço alimentar”, destaca. Faz parte do trabalho de Edvânia, também, o acompanhamento às gestantes.
Dessa proximidade de Edvânia com a comunidade veio o convite para tornar-se uma alfabetizadora.
Mesmo insegura pois “não sabia se tinha jeito para ensinar”, Edvânia aceitou o desafio. O resultado? Bem... ela gostou muito da experiência e o lucro foi dos alunos, que ganharam uma alfabetizadora dedicada.

Quem comprova o empenho de Edvânia é a coordenadora de Campos Sales, Maria Patrocínio dos Santos Maciel.  Ela conta que o impacto positivo de Edvânia na vida de seus alunos é tão forte, que um deles até parou de beber por influência dela. “Ele era alcoólatra e um dia chegou bêbado para a aula”, conta a coordenadora. Edvânia pediu, então, que trancassem o portão e não o deixassem entrar, pedindo para avisá-lo que no dia seguinte ela iria à casa dele. “No dia seguinte, conforme prometera, a alfabetizadora foi à casa do aluno e, carinhosamente, porém firmemente, lhe disse que se ele quisesse continuar freqüentando as aulas dela, teria que parar de beber. E ele parou!”, destaca.

Para Edvânia, o trabalho que realiza como alfabetizadora é muito gratificante, uma vez que está auxiliando os alunos a fazer uma leitura do mundo. “Eu me identifiquei com a função, pois posso crescer por meio dela e também ajudar quem precisa”, finaliza.

(Outubro/2007)


Voltando a ser feliz!

"Antes da Alfabetização Solidária, eu só sabia assinar o meu nome", conta Aldina Maria da
Conceição, 69 anos, sobre sua pouca experiência com os estudos. Nascida em Juazeiro do Norte, na Bahia, ficou órfão de mãe aos dois meses de idade. Criada pelo pai, cresceu ajudando-o com o trabalho na roça e devido à distância do centro da cidade, nunca teve a oportunidade de freqüentar uma escola. "Minha jornada de trabalho começava às seis da manhã e só terminava às cinco da tarde. Além de muito cansada eu não tinha como ir até o centro para estudar", relembra.

E assim Conceição foi levando seus dias até casar-se, em 1961, e ir morar com o marido no município de Missão Velha, no Ceará, onde também moravam seus sogros. Ela conta que na época ficou muito feliz e cheia de esperanças, pois acreditava que saindo da roça e indo morar na cidade conseguiria realizar o antigo sonho de aprender a ler e escrever. "Assim que me mudei consegui frequentar o Mobral, mas foi por pouco tempo, pois meu marido logo implicou! Ele não gostava que eu saísse de casa e eu tive de parar de estudar. Só consegui aprender a escrever meu nome".
Conceição então passou anos dedicando-se somente aos filhos, marido e aos afazeres da casa. "Na época tive de escolher entre manter meu casamento e estudar. Nunca me conformei com a situação, mas não tinha como mudá-la", lamenta.

Com o passar do tempo, porém, o casamento não deu certo e a separação foi inevitável. "Fiquei muito abalada, afinal, eu havia aberto mão dos meus sonhos pelo casamento e tudo acabou indo por água abaixo. Agora, além de não saber ler nem escrever, ainda era uma mulher separada, o que também não é nada fácil em uma cidade pequena", diz referindo-se ao preconceito que sentiu na época. Ela conta que achava que com a separação teria pelo menos a liberdade para fazer tudo o que sempre quis, incluindo, estudar. Mas, ao contrário do que imaginou, sentiu-se tão frustrada e envergonhada com a sua condição de separada que mal conseguia sair de casa. "No fundo me sentia tão presa quanto na época de casada, pois tinha muita vergonha de encontrar com as pessoas da cidade depois da separação devido aos boatos maldosos que sempre acontecem em cidades pequenas", explica.

Até que em 2006 recebeu a visita da alfabetizadora da AlfaSol Fatinha, que a convidou e insistiu para que se matriculasse no curso da Alfabetização Solidária que seria realizado no município em parceria com a Universidade Regional do Cariri.  Além do tempo, que também se encarregou de ajudar a amenizar as dores e a vergonha, a visita de Fatinha foi o empurrão que faltava pra que Conceição levantasse a cabeça e seguisse em frente. "Coloquei para fora a coragem que parecia ter perdido, deixei os olhares maldosos de lado e me matriculei! Foi a melhor coisa que fiz, pois aos 68 anos de idade voltei a sentir alegria em viver", diz.
Cheia de perspectivas por finalmente estar realizando seu antigo sonho, Conceição está tão animada que agora jura que não deixará mais de estudar.  E se depender de sua boa vontade isso certamente irá acontecer! Prova disso é que hoje já está cursando a 2ª série da do ensino fundamental - Educação de Jovens e adultos (EJA).

Ela conta que apesar do que sofreu, tudo valeu a pena pelos seus três filhos, hoje todos formados em cursos de nível superior. "Eles estão criados, vivem em São Paulo e levam uma boa vida. Já fiz a minha parte, agora é cuidar de mim, continuar estudando e viajando para visitá-los", diz, lamentando apenas o fato de não ter voltado a estudar assim que se separou. "Se tivesse voltado antes, talvez hoje seria professora", complementa. "Por enquanto, vou me realizando com o prazer e a alegria inexplicáveis que sinto ao conseguir ler um livro", completa muito animada.

(Agosto/2007)


Sala de aula peculiar

No coração da cidade de São Paulo, um grupo de dezessete pessoas reúne-se de segunda a quinta-feira, a partir das 18h30, na sala de reuniões do quarto andar de um edifício de dez andares, para aprender a ler e escrever. São moradores do próprio prédio, beneficiados pelo empenho da alfabetizadora e vizinha Edilena Ribeiro da Silva, de 37 anos, que, no ano passado, teve a idéia de montar um turma de alfabetização no local.

A história da sala de aula acompanha a peculiaridade do prédio onde está instalada. Há quatro anos, os moradores invadiram o edifício da Rua Guaianazes, onde um dia funcionou um hotel, e por meio de um acordo com o proprietário, ganharam provisoriamente o direito de residir no local. Durante esse período, muitos dos primeiros moradores deixaram o prédio e novos moradores vieram. A infra-estrutura da construção também sofreu a ação do tempo e da falta de reparos, ficando bastante danificada. Devido à ação de vândalos, a antiga fiação, que servia o prédio, foi arrancada para comercialização e o prédio ficou às escuras. Os moradores improvisaram e a questão foi remediada com lampiões a gás. Hoje, existe uma negociação em andamento, envolvendo a associação de moradores e a Prefeitura Municipal de São Paulo, para verificar a possibilidade de recuperação do edifício a fim de transformá-lo em moradias para as pessoas que lá residem ou mesmo uma possível transferência para outro local mais adequado.

Enquanto a decisão definitiva não vem, Edilena decidiu oferecer aos vizinhos a oportunidade de voltar a estudar. Levou a proposta à Universidade Presbiteriana Mackenzie, parceira da AlfaSol na condução do Programa Grandes Centros Urbanos (PGCU), e foi aprovada. Contando com o apoio da associação dos moradores do prédio, que estimulou a efetivação das matrículas, a alfabetizadora conseguiu compor a turma e levar adiante o projeto, a despeito de todas as dificuldades. Para montar a sala de aula, o Mackenzie cedeu carteiras, transportadas ao edifício por meio de um carreto financiado pela alfabetizadora com a bolsa auxílio que recebe para dar as aulas. O mesmo aconteceu com a lousa.

Com a sala de aula organizada, a alfabetizadora enfrenta agora o desafio de manter os alunos freqüentando o curso. "Eles precisam compreender que é preciso ter garra e força de vontade para que possam mudar de vida", explica. Para ela, falta aos moradores conscientização sobre a importância do estudo para uma vida melhor. "Atualmente, quando surge alguma dificuldade financeira, eles resolvem momentaneamente a questão catando latinhas de alumínio para reciclagem, sem pensar em planos mais concretos para o futuro".

Os alfabetizandos de Edilena têm necessidades distintas. Alguns precisam aprender a ler e escrever, enquanto que outros preferem aprender a fazer contas. "Mas, no fundo o objetivo é o mesmo: todos desejam ter um pouco mais de autonomia, como não depender das pessoas para ler o destino do ônibus no momento de tomar uma condução", conta a alfabetizadora. “Além disso, a maioria tem vergonha da sua condição de analfabeto”, completa.

Poucos alunos de Edilena nasceram em São Paulo, inclusive ela, uma paranaense da cidade de Xambrê, na região de Maringá. Aos 20 anos, deixou Pérola, município vizinho à sua cidade natal, onde então residia, para vir a São Paulo trabalhar como babá para uma família em Higienópolis. Permaneceu neste emprego por dez anos e, nessa ocasião, aproveitou o período para terminar o Ensino Fundamental e o Médio. Prestou vestibular para Pedagogia no próprio Mackenzie e foi aprovada, mas, ao concluir o primeiro ano do curso, acabou trancando a matrícula por não conseguir pagar as mensalidades. "Na ocasião, deixei de procurar alternativas que me ajudassem a terminar a faculdade", diz ela, acrescentando que, atualmente, seu retorno aos estudos foi garantido por uma bolsa concedida pelo Mackenzie.

Agora, além de alfabetizar, Edilena faz um estágio na escola municipal Celso Leite, localizada na Bela Vista. Ela acompanha um aluno especial matriculado em uma sala de aula regular, auxiliando-o no entendimento das lições e na execução das tarefas.

(Agosto/2007)


Alfabetização: aliada para vencer a timidez

"Eu era tão tímida, que morria de vergonha de atender às pessoas na porta de minha casa",  diz Raimunda Luiza de Araújo, 44 anos, moradora do município de Missão Velha, no Ceará. Ela conta que, apesar de seus pais a matricularem na escola quando era criança, nunca chegou a freqüentá-la. "Eu me recusava a ir, pois era muito tímida", justifica. E não havia maneira de fazer Raimunda sair de casa para freqüentar as aulas, e assim passou grande parte de sua vida, dentro de casa. Tinha muita vergonha de conversar com as pessoas e essa timidez se revelou mais seriamente depois de mais velha devido à falta de estudos, conforme ela mesma assume.Após o falecimento de seu pai, ela ficou morando apenas com a mãe, sua maior companhia e continuou sem estudar e sem trabalhar, apenas ajudando no serviço doméstico.

Quando a alfabetizadora Fatinha, como carinhosamente ficou conhecida entre seus alunos, no município de Missão Velha, foi à casa de Raimunda para convidá-la a participar do curso de alfabetização de jovens e adultos da AlfaSol, esta finalmente aceitou porque tinha consciência de que precisava fazer algo que mudasse sua realidade. E assim, aos 43 anos, pela primeira vez em sua vida teve contato com a leitura e a escrita. "Tremi tudo, mas fiz", é como descreve as primeiras vezes em que pegou no lápis para escrever com a ajuda de Fatinha. Hoje, Raimunda está cursando o 2º ano do Ensino Fundamental (EJA) e o seu maior prazer é estudar.

Desde que ingressou nos estudos, sentiu uma enorme diferença no seu jeito de encarar o mundo, porque agora se sente mais solta para conversar com as pessoas e fazer amigos.  "Meu dia-a-dia também melhorou muito. Hoje consigo até ir ao banco e pagar as contas da casa, uma tarefa simples, mas que antes eu não conseguia fazer", conta. O sonho que hoje alimenta é a prova de que a cada dia que passa tem conseguido superar ainda mais sua timidez: "Quem sabe um dia eu me torne professora também".

(Julho/2007)


Alfabetizanda: Naíde de Arruda Pinheiro, concluinte da turma de 2005.
 
Dona Naíde de Arruda Pinheiro, 67 anos, mãe do atual prefeito municipal da cidade de Bacabeira, no Maranhão, é um exemplo de perseverança a ser seguido. Ela lembra que enquanto estava em período de aula numa das turmas de alfabetização de jovens e adultos da AlfaSol, tentava convencer os mais jovens que encontrava pelas ruas para que agarrassem, como ela fez, a oportunidade de estudar. Ela chegou a freqüentar a escola, mas logo se casou e largou os estudos para se dedicar mesmo aos dois filhos e marido. Para seus filhos, fez questão de proporcionar uma boa educação e isto se reflete hoje na vida deles que se tornaram respeitados políticos de Bacabeira.
Ela explica que a vontade de ler foi a principal razão que a levou a voltar a estudar a esta altura da vida.  O que mais a impressionou, foi a quantidade de pessoas de idade avançada reingressarem ou ingressarem pela primeira vez nos estudos. Ela mesma, ficou sabendo através de uma amiga que já estava quase terminando os oito meses de curso da AlfaSol. Naquela época, seu filho mais novo, José Venâncio Correa Filho era secretário de Finanças do município e hoje, aos 36 anos, é prefeito municipal. 

Dona Naíde foi muito apoiada pela família . "Meus filhos e noras  sempre me incentivaram muito", faz questão de salientar D. Naíde. Conforme eles, era o mínimo que poderiam fazer para retribuir tudo que lhes foi proporcionado pela mãe durante toda sua vida.  E agora Dona Naíde se sente muito feliz por ter realizado este sonho e como ela mesma diz, vai permanecer porque seu desejo continua sendo adquirir mais e mais conhecimentos. E isso realmente vem acontecendo: desde que   participou da turma de alfabetização,  seu maior prazer passou a ser os livros. "A alfabetização despertou em minha mãe novas possibilidades, como o seu sensível gosto pela leitura", concluiu seu filho, José Venâncio.

(Julho/2007)


Ensinar e aprender: a realização de um sonho em Nova Era (MG)
 
“Letramento é nadar no lago da alegria, navegar no rio da fantasia e desaguar no oceano da sabedoria de nossa vida.” A frase é parte integrante de uma poesia, escrita há muitos anos atrás por Cristiana Alves Batista para retratar sua paixão pela educação quando ainda cursava magistério. Naquela época, tornar-se alfabetizadora era um sonho ainda bastante distante da realidade. Após trabalhar em supermercado, lanchonete e outros segmentos diferentes dos que gostaria, Cristiana pôde realizar este sonho somente agora, aos 25 anos de idade, ao tomar conhecimento de que a prefeitura de sua cidade, Nova Era, em Minas Gerais, estava buscando pessoas interessadas em dar aulas para jovens e adultos nos cursos do Vale Alfabetizar. Foi selecionada pela Secretaria de Educação e recebeu a capacitação pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Segundo ela, ao ser selecionada, sua alegria foi tanta que mal podia acreditar que iria dar aulas. “Mas, satisfação maior, foi presenciar a formatura de meus alunos no mês passado”.

Descendente da 3ª geração de uma família de agricultores em fazendas latifundiárias de plantação de arroz, feijão, milho e produção de cachaça, a trajetória pessoal dessa mineira é permeada de memórias e histórias difíceis de contar. Ela lembra que, certo dia, quando ainda muito criança, estava acompanhando seus pais, tios e avós a caminho da roça quando uma cobra cascavel picou seu tio, na época com apenas oito anos de idade, e ele acabou morrendo por falta de atendimento médico adequado. “O município era tão pobre que não tinha nem hospital! Tudo que havia era um orfanato e uma maternidade no município vizinho de João Molevade”, conta. A cobra que matou seu tio tinha 12 anos de idade - ela conta que a quantidade de nós do rabo da cascavel equivale a quantidade de anos que ela tem. Estas e outras peculiaridades de vida das comunidades atendidas, temperadas com tristezas e alegrias, mostram como é diferenciado o trabalho de educação de jovens e adultos. São muitas as “Cristianas” oriundas de famílias simples e que não tiveram oportunidade de estudar. Mas a história de pelo menos esta Cristiana já tomou um outro rumo! Cheia de esperança em um futuro melhor, ela já iniciou o curso de Pedagogia na Universidade de Uberaba e pretende, além de continuar a dar aulas, concretizar outro sonho: viajar muito pelo Brasil e outros países. “Por enquanto viajo pelo mundo todo somente por meio dos livros”, brinca Cristiana, que finaliza ressaltando que foi muito gratificante sua experiência como alfabetizadora do Vale Alfabetizar.

(Julho/2007)


O primeiro passo


"Não tem dinheiro que pague". É assim que Pedro Oralino Fernandes, de 51 anos, resume o que significou na vida dele o aprender a ler e escrever. Este pai de cinco filhos, que praticamente cruzou o Brasil de Norte a Sul, teve uma vida de muitas lutas e, certamente, de muitas vitórias.

Pedro nasceu em Santo Antonio do Sudoeste, uma cidadezinha do interior do Paraná, quase na divisa com a Argentina. Naquela época, só os bem-nascidos freqüentavam a escola e com ele não foi diferente. Seu pai, que tinha cinco filhos para criar, não pode mantê-los na escola e Pedro só estudou por dois anos, antes de se ocupar com o trabalho na lavoura. Em 1981, quando Pedro tinha 25 anos, a família decidiu que era hora de mudar de vida e rumaram numa viagem sem volta para o Pará. Lá, estabeleceram-se em Eldorado do Carajás e Pedro conseguiu um emprego na Funai,como fiscal de plantação, um trabalho que não exigia o conhecimento das letras. Depois, ingressou na Companhia Vale do Rio Doce e, hoje, está na função de vigia na Prefeitura Municipal da cidade.

Em 2006, decidiu estudar e efetivou sua matrícula no curso de alfabetização promovido pela Alfabetização Solidária em parceria com a Fundação Vale do Rio Doce. O prefeito da cidade, Sr. João de Castro Barreto, deu total apoio ao projeto pessoal de Pedro, permitindo que ele deixasse o posto de trabalho uma hora mais cedo para poder estudar. O resultado foi concretizado no dia 19 de janeiro, com a entrega do diploma de conclusão de curso realizada na cerimônia de formatura promovida na cidade. Para ele, a alegria pela conclusão dessa etapa é apenas o prenúncio do que ainda virá, já que Pedro pretende dar continuidade aos estudos.

"Ganhei novas chances no trabalho e mais confiança dos meus chefes, pois agora conheço mais as coisas", finaliza.

(Jan/2007)


Pais que aprendem com os filhos

A história de Valdelina Oliveira da Silveira, de 51 anos, é muito parecida com a de muitos outros brasileiros. Nascida em Mutunópolis, no interior de Goiás, em uma família grande, de nove irmãos, trabalhou na roça desde criança para ajudar no sustento da casa.
Chegou a morar na cidade, onde teve a oportunidade de freqüentar a escola por seis meses.
Quando acabou o casamento de seus pais, ela, a mãe e seus irmãos voltaram para a lavoura, para morar na casa da avó materna. Os estudos foram esquecidos e ficou o trabalho duro na roça.

Aos 17 anos, a família resolveu tentar novamente a sorte na cidade de Mutunópolis, trabalhando em casas de família, já que a roça não oferecia muitas possibilidades. O irmão mais velho de Valdelina resolveu ir mais longe e rumou para o Pará. Após um período de três anos sem dar notícias, um primo apareceu, nos idos de 1973, para levar o resto da família para a região Norte do País.

Lá, Valdelina casou e teve seus três filhos. Trabalhou na roça também, mas, hoje, morando em Eldorado dos Carajás, que fica a 585 quilômetros de Belém, cuida apenas dos seus afazeres domésticos. Ela não precisa mais enfrentar as dificuldades do trabalho na roça, já que seu marido, que possui algumas casinhas alugadas em Serra Pelada, que fica a 42 quilômetros de sua cidade, cuida do sustento da família.

Seus filhos cresceram e já trabalham: o mais velho tem um emprego na prefeitura de Sapucaia, que fica a 100 quilômetros de sua casa, enquanto que o caçula, de 21, tem uma ocupação no laticínio da cidade. A filha do meio, com 24 anos, tornou-se professora e alfabetizadora, e foi ela quem reintroduziu a mãe no mundo das letras. Em 2006, Valdelina efetivou sua matrícula nos cursos do Vale Alfabetizar, uma parceria entre a Alfabetização Solidária e a Fundação Vale do Rio Doce. Aprendeu a ler e escrever pelas mãos de sua filha e agora já pode informar-se pelo jornal e ler a Bíblia, ou ainda, escrever cartas para seus entes queridos. No dia 19 de janeiro, exatamente um dia após completar 51 anos, ela estará celebrou sua formatura no curso de alfabetização - um momento que ficará na sua lembrança para sempre.

(Jan/2007)


Música clássica para todos: alfabetizandos assistem apresentação da OSB em São Luís, MA

As cortinas se abrem e a imagem que começa a surgir encanta a todos os presentes. Os músicos e os mais diversos instrumentos vão aparecendo, compondo um incrível cenário: a Orquestra Sinfônica Brasileira. Os olhos brilham fascinados por uma imagem nunca antes imaginada, e os ouvidos agradecem a leveza e harmonia daquelas notas musicais. 

Essas foram algumas das sensações experimentadas por um grupo de alunos do Vale Alfabetizar, uma parceria entre a Alfabetização Solidária (AlfaSol) e a Fundação Vale do Rio Doce. Em São Luís conta com a parceria da Universidade Federal do Maranhão.

“Foi a primeira vez que eles tiveram contato com a música clássica, todos se encantaram, ficaram maravilhados com a apresentação”, informa o alfabetizador Rodrigo Campelo Ferreira, um dos motivadores do passeio. A oportunidade foi única, pois essa foi uma das poucas vezes que a orquestra se apresentou na cidade. “Eventos como esse são muito raros em São Luís, especialmente os gratuitos”, diz Rodrigo.

A apresentação não ficou apenas na memória dos alunos: Rodrigo fez questão de levá-la para a sala de aula. No começo da discussão sobre o evento, os alfabetizandos se diziam muito simples perto da grandiosidade da orquestra. “Eles se consideram privados de cultura”, conta o alfabetizador. 

Durante a aula foram abordados os temas das músicas apresentadas, o contexto histórico em que foram criadas e o autor. Depois dessa análise, os alunos entenderam que não podem perder oportunidades como essa e se interessaram ainda mais pelo assunto.

A arte faz parte das aulas oferecidas pelos alfabetizadores em São Luís, que utilizam obras de artistas brasileiros em dinâmicas e exibem filmes durante as aulas a fim de que eles relacionem a arte com suas experiências de vida. “Não é porque eles não sabem ler, que não sabem codificar os signos que estão presentes em suas vidas”, conclui Rodrigo.

(Dez/2006)


A realização de um grande sonho

"Vale, valeu a pena. Hoje aprendi a ler e escrever. Vale, valeu a pena. E cantando quero te agradecer". Esse é o refrão da música que Raimundo Clemilson Pinheiro Vieira, 31 anos, escreveu para homenagear o programa Vale Alfabetizar, uma parceria entre a Alfabetização Solidária e a Fundação Vale do Rio Doce. Clemilson, como é conhecido em Paragominas(PA), acaba de gravar a canção em um estúdio. " Meu maior sonho era gravar a minha música. Nunca tinha pisado em um estúdio, fiquei tão nervoso que achei que não ia conseguir cantar", relata emocionado.

"Cantor e compositor" desde criança, Clemilson costuma dizer que nasceu e foi criado na música, e orgulha-se ao dizer que esse é o seu dom. No entanto, a primeira oportunidade que teve de mostrar o seu trabalho foi somente agora. "Sempre morei na zona rural, vivendo como agricultor.

Tive que trabalhar desde pequeno para ajudar meu pai", diz.E esse foi um dos motivos que o impediram de aprender a ler e escrever quando era pequeno, por isso foi alfabetizado apenas esse ano." Quando fiquei sabendo que o Vale Alfabetizar oferecia aulas no período da noite, não deixei a oportunidade escapar". Esse mês Clemilson conclui o curso e se apresenta na cerimônia de formatura, cantando ao vivo para todos os presentes. "Será emocionante cantar em minha própria formatura", comenta feliz.

Segundo ele, ser alfabetizado foi apenas um passo para a sua longa trajetória. "Vou continuar estudando e aprender cada dia mais. Eu abri os olhos, estou vendo a vida de outra maneira", diz.

Antes de aprender a escrever, suas músicas ficavam registradas apenas na sua memória. Assim, algumas das suas criações foram perdidas ao longo dos anos. "Agora posso guardar as canções, já escrevi mais de vinte", conta o artista. Cantar sempre foi seu sonho, apoiado pela família e pelos amigos não desistiu, e agora se sente muito feliz por realizá-lo. Assim como diz um dos versos de sua música, ele tem vontade de gritar para todo o Brasil ouvir: "Vale, valeu a pena!".

Conheça a letra da música:

Vale Alfabetizar
Uma porta que se abre
Uma chance para educar
Todos aqueles que não sabem
Quero te agradecer
Vale, UEPA e Prefeitura
Por que aprendi a ler
Sou mais homem cidadão com estrutura
E o que aprendi sempre vou levar ao meu lado
Analfabeto pra mim é coisa do passado
E almofada não vai mais o meu dedo sujar
Vale, valeu a pena!
Hoje aprendi a ler e escrever
Vale, valeu a pena!
E cantando quero te agradecer
Vejo o brilho no olhar
E as letras na memória
Os velhinhos a estudar
Vão buscando a vitória
Não importa a idade
O que vale é a força de vontade
Eu não vou perder o ônibus na estação
Então vou fazer o que diz meu coração
Que só quer gritar para todo Brasil ouvir:
Vale, valeu a pena!
Hoje aprendi a ler e escrever
Vale, valeu a pena!
E cantando quero te agradecer

(Dez/2006)


Uma sala de aula inusitada

O desejo de buscar a educação criou uma sala de aula inusitada em São Luis, no Maranhão. A transformação ocorreu num bar, localizado na periferia da cidade. De dia, o estabelecimento funciona normalmente, mas, nas noites de segunda a quinta-feira, a partir das 19h00, as portas do bar se fecham e o ambiente se prepara para receber um público diferente. É aqui que o alfabetizador Pablo Fabrício da Conceição, de 25 anos, introduz os alunos no mundo das letras, ensinando-os a fazerem contas e a expressarem seus sentimentos.

Assim como o local, as aulas ministradas não têm nada de convencional: o alfabetizador, que está concluindo sua formação em Educação Artística, usa os instrumentos que conhece bem, para estimular os estudos de seus alunos. “Percebi que eles aprendem pela imagem e, assim, elas são utilizadas com muita freqüência para que os alunos criem textos sobre o que estão vendo ou aprendam a escrever novas palavras”, conta Pablo. As imagens são levadas para a aula pelo próprio alfabetizador ou trazidas pelos alunos.

Os jogos teatrais são também bastante utilizados. Os textos são elaborados e encenados pelos próprios alunos, intensificando a dinâmica do aprendizado. “Os alunos passam a escrever e falar aquilo que entenderam da apresentação, aumentando seu vocabulário”, conta entusiasmado o alfabetizador. Por conta dessas atividades, as aulas são bem participativas e envolventes, animando o aprendizado e evitando a evasão dos alunos. Os próprios donos do bar, Reginaldo de Jesus de Souza, de 49 anos, e Olanda Rodrigues da Silva, de 32, são alunos de Pablo. Aliás, a idéia de ceder o estabelecimento partiu de Reginaldo, que achou o espaço do bar perfeito para a implantação de uma sala de alfabetização na região.
Depois que a sugestão foi aprovada, os dois colaboraram para a formação das turmas, recolhendo as inscrições dos interessados – todos os alunos são amigos, morando nas redondezas. A coordenação do curso ficou por conta da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), instituição parceira do Vale Alfabetizar, formada pela união entre a Alfabetização Solidária e a Fundação Vale do Rio Doce.

Durante o dia, Reginaldo trabalha como carpinteiro na Companhia Vale do Rio Doce, enquanto Olanda cuida do bar. À noite, eles se juntam aos demais alunos para aprender a ler e escrever.

“Quando era criança, meu pai não tinha condições de colocar os filhos no colégio, porque era muito longe. Assim, ele mesmo acabou nos ensinando alguma coisa”, relembra Olanda. Agora, com a possibilidade que surgiu, ela aproveitou para iniciar seus estudos. A matéria que ela mais gosta é matemática. “Meu marido sabe mais do que eu e é muito bom para fazer contas”, conclui ela.

(Dez/2006)


Revendo a própria vida na tela do cinema

A arte de educar vai muito além de ajudar o aluno na identificação mecânica de sinais. É um processo complexo, que objetiva capacitar o aluno/aprendiz na compreensão do mundo e de tudo que está a sua volta. Por essa razão, as professoras Fabíola Viana Sá Menezes e Ana Carolina Soares, do programa Vale Alfabetizar, uma parceria da Fundação Vale do Rio Doce com a Alfabetização Solidária, promoveram, em São Luís (MA), a exibição do filme "2 filhos de Francisco", que retrata a vida da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano, para os alunos das duas salas de aula.

A novidade agradou bastante, já que a maioria dos 45 alunos, na faixa etária entre 35 e 76 anos, jamais tinham ido ao cinema. "Escolhemos esse filme porque apresenta uma realidade bem próxima dos alfabetizandos, suas dificuldades e luta pela vida, além da linguagem ser bastante acessível", explica a professora Fabíola. A atividade consumiu uma semana. Isso porque as professoras conversaram antes com os alunos sobre o filme, detalhando o enredo e o porquê de sua escolha. Para que todos pudessem assistir, foram reservados dois dias de exibição. Na aula seguinte, as professoras levaram recortes de jornais e revistas, tesouras, colas, cartolina, papel pardo e canetas coloridas. O objetivo era que os alfabetizandos preparassem um painel de acordo com a imagem que viram e entenderam do filme. Com a apresentação do painel, as professoras conduziram um debate entre os alunos sobre a história, que se transformou em uma boa oportunidade para que fossem explicados os motivos do sucesso obtido pela famosa dupla sertaneja: perseverança, trabalho e apoio familiar.

A aluna Otacília Dias Gomes, de 45 anos, gostou muito do filme. Nunca tinha ido ao cinema e também se identificou muito com a história, que lembra um pouco suas dificuldades. "Não pude estudar quando criança porque, onde eu morava, não tinha escola. Depois, vim para São Luis para trabalhar em casas de família, casei aos 17 anos e tive sete filhos", relembra. Apenas este ano conseguiu encontrar-se com o aprendizado da escrita e leitura. Em seu painel, buscou retratar politicamente a questão, destacando a boa vida dos políticos em detrimento da população mais carente.

Para Maria José Penha Lindoso, de 50 anos, também presente à sessão de cinema, a experiência foi muito importante, porque, segundo ela, assim é mais fácil aprender. "A gente está olhando, a professora vai explicando e tirando dúvidas quando surgem", conta. Na infância, Maria José chegou a ir à escola, mas tinha esquecido muita coisa do que aprendera. "Meus irmãos estudaram, um é economista, outro, professor". Agora, viúva, mãe de sete filhos e cinco netos, voltou aos estudos e está realizando algo que sempre teve vontade de fazer.

(Dez/2006)


A arte que transforma a vida

Ensinar é uma arte. E a alfabetizadora Elenilde da Silva Oliveira Diniz, do programa Vale
Alfabetizar, uma parceria da Fundação Vale do Rio Doce com a Alfabetização Solidária, levou a teoria ao pé da letra. A fim de tornar as aulas ainda mais interessantes e atraentes para seus alunos de São Luís (MA), ela aproveitou seu conhecimento artístico e associou a alfabetização ao artesanato. "Foi uma forma de unir o útil ao agradável, aproveitando a arte que estamos criando para passar os conceitos", explica.As aulas de artesanato acontecem uma vez por semana apenas para os alunos que desejam participar. O primeiro trabalho da turma foi realizado em maio de 2006, com o uso de meia de seda. Orientados pelos alfabetizadores, os alunos prepararam flores para presentear as mães. A atividade deu tão certo que a professora inseriu novos materiais e finalidades, como papel para a prática de dobraduras que resultaram em cestas, fruteiras e portas-revistas, ou pinturas em tecido, como panos de prato e guardanapos. "Cada aluno acabou se destacando em algum tipo de atividade", salienta.

Todo o trabalho desenvolvido é contextualizado e os alunos aos poucos vão sendo informados se estão utilizando cores primárias ou secundárias, se o desenho escolhido tem formas geométricas ou linhas curvas, ou, ainda, se as frutas que estão sendo pintadas são ou não medicinais.

Além do atrativo extra para o ensino, a atividade artística permitiu um ganho financeiro para
alguns alunos. É o caso da aluna Maria Felícia da Conceição Costa, de 55 anos. Antes de freqüentar o curso do Vale Alfabetizar, ela praticamente só cuidava da casa. Hoje, graças ao que aprendeu, ela descobriu em si um lado artístico e vende os produtos que elabora, recebendo inclusive encomendas. "Faço muitos vasos, pratos e cestas em papel dobradura e também pinturas para panos de prato", conta ela, acrescentando que a escola é uma diversão, onde se aprende a ler, a fazer artesanato e se consegue novas amizades.

O sucesso da iniciativa é facilmente avaliado "Muitas pessoas viram o resultado do aprendizado e pretendem efetivar sua matrícula para freqüentar o próximo módulo", finaliza Elenilde.

(Dez/2006)


Um recomeço aos 92 anos de idade

Disposição e vigor são palavras que representam Porfírio Ferreira Tocantins. Aos 92 anos, Porfírio acaba de concluir o curso de alfabetização promovido pela AlfaSol em parceria com a empresa Schincariol no município de Benevides (PA).

Além dos estudos, que pretende dar continuidade após ser alfabetizado, Porfírio encontra tempo para fazer hidroginástica, ginástica adaptada e ainda trabalha - mas agora, apenas nas horas vagas. Há aproximadamente um ano, após um pequeno problema de saúde, o médico recomendou que ele fizesse atividades físicas regulares e indicou o Centro de Convivência da Prefeitura da cidade. Junto com a esposa, Sebastiana Lima da Costa, de 80 anos, Porfírio começou a freqüentar as atividades oferecidas pelo Centro e descobriu que poderia ser alfabetizado aos 92 anos de idade. Não perdeu a oportunidade e topou freqüentar as aulas.

Ele viveu grande parte da sua história em Belém, onde trabalhou na lavoura e nos portos. Há dezessete anos, cansado da vida agitada e violenta da cidade grande, mudou-se para Benevides com sua esposa. Os seus nove filhos e os três netos seguiram seus caminhos e encontram-se espalhados pelo Brasil.

Porfírio, que não teve a oportunidade de estudar quando jovem devido à distância da escola e a necessidade de trabalhar, não pretende parar na alfabetização. Ele e sua esposa deverão continuar os estudos no próximo ano através do EJA ( Educação de Jovens e Adultos) em uma escola da rede municipal de Benevides.

Ele conta com a força dos amigos que conquistou nas aulas de alfabetização e no Centro de Convivência para continuar os estudos. Porfírio e sua esposa vão ao Centro todos os dias no período da manhã para as aulas e as atividades, D. Sebastiana também aproveita para fazer aulas de trabalhos manuais.
Porfírio soube como aproveitar as oportunidades que surgiram em sua vida, venceu as barreiras e enfrentou os preconceitos. Hoje, como resultado de suas conquistas, pode dizer a todos que sabe ler e escrever.

(Dez/2006)
 

Um exercício de cidadania

O direito ao voto é, muitas vezes, deixado de lado por aqueles que não tem mais a obrigação legal de comparecer às urnas. Por essa razão, a alfabetizadora Raimunda Campos Pimenta, do Vale Alfabetizar, programa realizado em parceria com a Fundação Vale do Rio Doce e a Alfabetização Solidária no município de São Luis (MA), decidiu realizar uma atividade para estimular seus alunos - a maioria, idosos - a comparecerem às urnas e exercerem sua cidadania. "A idéia foi reproduzir na sala de aula algumas etapas do processo eleitoral", explica.

A atividade completa, entre campanha, eleição e apuração, levou uma semana para ser concretizada e foi realizada no mês de setembro. O primeiro passo foi uma explicação da professora sobre como funciona uma eleição, o que é o voto direto e o que são votos nulos e brancos.

Em seguida, a alfabetizadora procurou despertar nos alunos o interesse pela  disputa dos cargos de presidente e governador e pediu aos alunos que se candidatassem. Houve quatro "candidatos" para cada uma das funções, que fizeram suas propostas e as apresentaram para os alunos-eleitores. Nelas, estavam incluídos temas como educação, trabalho, saúde e saneamento básico. A última etapa foi a eleição simulada, que contou com urna de papelão, apuração dos votos e indicação do vencedor.

Os candidatos eleitos foram o Sr. Cláudio Pinto Duarte, de 74 anos, escolhido para o cargo de presidente, e Maria Olímpia Pinto Gomes, de 85 anos, eleita governadora. A plataforma de campanha do Sr. Cláudio não incluía temas específicos: apenas disse que queria beneficiar as pessoas, prometendo que alguma coisa melhor nasceria como reconhecimento pelos votos que recebeu. "Fiquei muito feliz e emocionado quando todos bateram palmas e me elegeram", conta o aluno, que salientou considerar a escola muito mais do que um lugar para aprender, já que fez muitos amigos. "Durante a eleição na sala de aula descobri que tenho mais amigos do que imaginava".

A governadora eleita também ficou feliz com a vitória. "Prometi que se os alunos me ajudassem a ter o que eu queria, eu iria ajudá-los depois", explicou Maria Olímpia. E, para surpresa dos alunos, o evento contou com a cobertura da TV Mirante,  retransmissora da Rede Globo, que, ao saber da atividade, decidiu realizar a cobertura da última etapa. A matéria foi veiculada no jornal local, trazendo ainda mais satisfação não só para os eleitos, mas a todos os demais alfabetizandos que participaram da "simulação". "Muita gente me viu na TV e veio comentar depois", relata, satisfeito, o Sr. Cláudio.

(Dez/2006)


Reginaldo Ribeiro Costa
58 anos - Riachão do Dantas (SE)
1º lugar – júri oficial - Concurso de Redação 2006

“A história da minha vida é muito interessante, tudo que sei aprendi com a vida”, conta Reginaldo Ribeiro Costa, de 59 anos, vencedor do 1° lugar oficial do IX Concurso de Redação da Alfabetização Solidária.
Reginaldo nasceu no sul da Bahia, mas desde os dois anos mora em Riachão do Dantas (SE) e se diz sergipano de coração. Ele não tinha pai, não tinha uma casa e não tinha estudo. Criou-se superando as dificuldades que a vida lhe impôs.

Aos 12 anos, um senhor o convidou para trabalhar como artesão. Ele ensinou o garoto a confeccionar bolsas, selas e outros artigos em couro, e ele realmente tinha o dom para isso.

“Tem selas que fiz que foram vendidas na França”, conta orgulhoso.Sua mãe morreu quando ele tinha 19 anos e ele seguiu em frente com os irmãos. Aos 20 se casou, e hoje ainda é o mesmo homem apaixonado da juventude. Ele teve três filhos e se preocupou para que todos tivessem uma boa educação. O sonho de aprender a ler e a escrever nunca se pagou da mente de Reginaldo. “O que mais me entristecia era ir ao cinema na infância e não conseguir ler as legendas dos diálogos entre os personagens”, se referindo ao cinema mudo.

No começo desse ano, Reginaldo passou a freqüentar as aulas da Alfabetização Solidária e pouco tempo depois já se sentia realizado. “Eu aprendo com facilidade, a leitura se tornou uma paixão”
Força de vontade é o que não falta para o aluno, que agora também está se dedicando a matemática.

“Estou aprendendo as quatro operações, mas por enquanto só sei somar”. Reginaldo acrescenta que tem um espírito jovem e ainda tem muito o que aprender.
Ele conta que um dia estava lendo um jornal quando viu a palavra filantropia, guardou a palavra na mente e saiu em busca do seu significado, o aluno decidiu que queria fazer algum serviço filantrópico. Então, teve a iniciativa de montar um grupo de pessoas da sala de aula da Alfasol que têm problemas de alcoolismo, o grupo compartilha suas experiências a fim de se recuperarem do vício.

Reginaldo que já foi alcoólatra, mas diz que hoje dedica todo seu tempo livre à leitura


Honorina Maria Moraes da Silva

51 anos - Rio Piracicaba (MG)
2º lugar oficial – Concurso de Redação 2006

A alfabetizanda Honorina Maria Moraes da Silva, de 55 anos, venceu o 2° lugar oficial do IX
Concurso de Redação da AlfaSol.

Nascida em Rio Piracicaba (MG), a aluna do Vale Alfabetizar tem uma história de luta para contar.
Mãe de cinco filhos, avó de sete netos e viúva há 17 anos, ela precisou voltar ao mercado de  trabalho. Há quinze anos ela trabalha como cozinheira no restaurante da Companhia Vale do Rio Doce, no município. O trabalho fez com que ela percebesse a importância de dominar a leitura e a escrita, ferramentas necessárias em sua rotina de trabalho.
Honorina já havia freqüentado a escola até a 4° série do ensino básico, mas precisou interromper os estudos para ajudar a família com as despesas de casa. “Apesar de já ter ido à escola, eu não lembrava muita coisa e tinha muita vontade de prosseguir meus estudos”, conta. Em março deste ano, com o incentivo de algumas amigas, a aluna se matriculou na sala de aula do Vale Alfabetizar. “Na escola eu pude relembrar algumas coisas e aprender muita coisa nova”
As operações matemáticas, que eram sua maior dificuldade, já não são mais um problema. “Eu faço muitas contas no meu dia-a-dia, preciso pesar as mercadorias, dividir o que temos pelo número de pessoas”, conta.

Honorina pretende ingressar na Educação de Jovens e Adultos, e não desistirá dos estudos porque pretende ajudar no futuro dos netos.


Maria Aparecida dos Santos
15 anos - Nossa Senhora Aparecida (SE)
3º lugar oficial - Concurso de Redação 2006

“Começar a ler e a escrever é como uma epidemia sem cura, porque depois que a gente começa nunca mais quer parar”,  são essas as palavras da alfabetizanda Maria Aparecida dos Santos, de 15 anos, vencedora do IX Concurso de Redação da Alfabetização Solidária.
Na redação que teve como tema “Os melhores anos da minha vida”, Maria escreve que os melhores anos estão acontecendo agora, que ela está se alfabetizando.

A aluna, nascida em São Miguel do Aleixo (SE), não teve uma infância fácil. Ela nunca freqüentou uma sala de aula, pois desde criança, precisou trabalhar na roça para ajudar os pais. Maria perdeu o pai aos dez anos de idade, e se casou em seguida. Mudou-se Itaquatiara, pequeno povoado de Nossa Senhora Aparecida, também no Sergipe, onde mora até hoje com o marido e o filho, Vitor, de dois anos.

Maria ingressou na AlfaSol em 2004, mas não pôde concluir o curso da primeira vez. No início deste ano, retomou as aulas e está aprendendo ao lado do marido Valdeci dos Santos, 21 anos. “É muito bom aprender e não quero mais parar”, ressalta. A alfabetizanda nem sonhava em ganhar o concurso, ficou muito feliz e está muito ansiosa para conhecer São Paulo, diz que sempre teve esse sonho.


Ademilton Pereira de Medeiros
30 anos - Pombal (PB)

Os números conquistados ao longo de nove anos de atuação das Alfabetização Solidária são excepcionais, mas insuficientes para captar os desdobramentos da iniciativa. Esse é o caso de Ademilton Pereira de Medeiros, 30 anos. Há sete, ele se tornou um alfabetizador em Sítio Coatiba, nas imediações de Pombal, na Paraíba. "Eu tinha dois filhos para criar, mas nada de profissão e nada de emprego. Quando surgiu a oportunidade de dar aulas, fiquei até com medo de não conseguir", lembra. Para piorar a situação, Ademilton foi recebido na comunidade, em uma de suas primeiras tentativas de reunir alunos, com uma certa hostilidade própria de quem nunca viveu uma experiência semelhante, . "Era duro convencer a comunidade que eu apenas queria ensinar", acrescenta. "Mas, aos poucos, algumas pessoas começaram a freqüentar as aulas, enquanto outras ficavam observando das janelas."

Vencida a resistência, Ademilton foi até presenteado em um aniversário que passou com os alunos de Sítio Coatiba. "Ganhei escova e pasta de dente, além de um sabonete", conta. "Fiquei tão emocionado que senti que valeu a pena meu esforço e dedicação. Peguei amor pelo ensino e não quis mais largar as salas de aula." E não largou mesmo. Posteriormente, Ademilton foi aprovado em um concurso público para professor da rede municipal de ensino. No ano passado, passou a dirigir a escola de Educação de Jovens e Adultos Professor Nilton Seixas. Nas quatro salas de EJA com cerca de 25 alunos cada, ele estima que 80% das pessoas sejam egressas das turmas da Alfabetização Solidária. Em 2005, Ademilton manteve seu histórico de conquistas: formou-se em pedagogia e participou da capacitação de novos alfabetizadores da Alfasol na região. "Foi incrível ver que meu trabalho cresceu tanto que já posso passar parte da minha experiência para outras pessoas", afirma.


Francisco José de Paiva
68 anos - Paragominas (PA)

Helenice Barbosa
28 anos - Paragominas (PA)

Os desafios enfrentados na alfabetização não se restringem a uma questão metodológica ou organizacional. Há muito mais. Alguns obstáculos são inimagináveis para quem não vive o dia-a-dia das salas de aula. Francisco José de Paiva, de 68 anos, lavrador em Paragominas, no Pará, enfrentou dentro de casa a primeira barreira para chegar até os bancos escolares. "Meu pai dizia que quem ia para escola era preguiçoso e não queria trabalhar", narra Francisco, que no ano passado participou das turmas da Alfasol. "Antes disso, meu lápis sempre foi o cabo da enxada." E esse não é um caso isolado. Na lista das principais causas que contribuem para o analfabetismo e afastam jovens alunos das classes existem itens como a necessidade de ajudar a família na lavoura, a inexistência de escolas próximas, a paternidade e a maternidade precoces, além de falta de dinheiro e transporte.

A esse rol de motivos, Helenice Barbosa, de 28 anos, atualmente professora de turmas de Educação de Jovens e Alunos e ex-alfabetizadora da Alfasol, acrescenta um outro fator, igualmente dramático: "A principal dificuldade é lidar com o pessimismo e a idéia de fracasso das pessoas", observa a moça. "Mas isso tudo dá para reverter. Foi um aluno meu que disse uma vez: ‘a gente pode não aprender como uma criança, mas sempre pode aprender.’ Todos os dias percebo que ele estava certo." Uma das formas de diminuir bloqueios e atenuar dificuldades é sempre associar os temas de sala de aula a assuntos conhecidos pelos estudantes, como a agricultura. E Helenice este ano pôde comemorar mais duas conquistas como professora. Ela ensinou as primeiras letras para a mãe, Joana Reis Barbosa, de 58 anos, e para a avó, Raimunda Barbosa, de 76 anos. "Foi uma luta, mas deu tudo certo", conclui a professora Helenice.


Maria de Lourdes Ferreira da Silva
63 anos - Zona rural de Pombal (PB)

Maria de Lourdes trabalhou na lavoura desde os dez anos de idade. Só pôde realizar o sonho de estudar a cerca de quatro anos, quando ingressou numa classe da Alfabetização Solidária. "As professoras passavam de casa em casa, chamando quem não sabia ler e escrever para entrar no curso", conta, arremantando: "E eu fui." Lourdes, na verdade, foi muito mais longe.

Agora, já cursa a 4ª série do ensino fundamental em uma turma de Educação de Jovens e Adultos. "Ela participa de todas as atividades e só tira notas boas", diz a professora Leiliane Almeida de Melo Freitas, de 30 anos. A força de vontade da lavradora foi tão grande que contagiou sua família. Entusiasmado com o exemplo, o irmão mais novo de Lourdes, Raimundo Ferreira, resolveu voltar a estudar e hoje já cursa a 2ª série de EJA.


 
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