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1
Título
Maria de Lourdes Ferreira da Silva
Resumo
63 anos - Zona rural de Pombal (PB)

Maria de Lourdes trabalhou na lavoura desde os dez anos de idade. Só pôde realizar o sonho de estudar a cerca de quatro anos, quando ingressou numa classe da Alfabetização Solidária. "As professoras passavam de casa em casa, chamando quem não sabia ler e escrever para entrar no curso", conta, arremantando: "E eu fui." Lourdes, na verdade, foi muito mais longe.

Agora, já cursa a 4ª série do ensino fundamental em uma turma de Educação de Jovens e Adultos. "Ela participa de todas as atividades e só tira notas boas", diz a professora Leiliane Almeida de Melo Freitas, de 30 anos. A força de vontade da lavradora foi tão grande que contagiou sua família. Entusiasmado com o exemplo, o irmão mais novo de Lourdes, Raimundo Ferreira, resolveu voltar a estudar e hoje já cursa a 2ª série de EJA.
2
Título
Francisco José de Paiva
Resumo
68 anos - Paragominas (PA)

Helenice Barbosa
28 anos - Paragominas (PA)

Os desafios enfrentados na alfabetização não se restringem a uma questão metodológica ou organizacional. Há muito mais. Alguns obstáculos são inimagináveis para quem não vive o dia-a-dia das salas de aula. Francisco José de Paiva, de 68 anos, lavrador em Paragominas, no Pará, enfrentou dentro de casa a primeira barreira para chegar até os bancos escolares. "Meu pai dizia que quem ia para escola era preguiçoso e não queria trabalhar", narra Francisco, que no ano passado participou das turmas da Alfasol. "Antes disso, meu lápis sempre foi o cabo da enxada." E esse não é um caso isolado. Na lista das principais causas que contribuem para o analfabetismo e afastam jovens alunos das classes existem itens como a necessidade de ajudar a família na lavoura, a inexistência de escolas próximas, a paternidade e a maternidade precoces, além de falta de dinheiro e transporte.

A esse rol de motivos, Helenice Barbosa, de 28 anos, atualmente professora de turmas de Educação de Jovens e Alunos e ex-alfabetizadora da Alfasol, acrescenta um outro fator, igualmente dramático: "A principal dificuldade é lidar com o pessimismo e a idéia de fracasso das pessoas", observa a moça. "Mas isso tudo dá para reverter. Foi um aluno meu que disse uma vez: ‘a gente pode não aprender como uma criança, mas sempre pode aprender.’ Todos os dias percebo que ele estava certo." Uma das formas de diminuir bloqueios e atenuar dificuldades é sempre associar os temas de sala de aula a assuntos conhecidos pelos estudantes, como a agricultura. E Helenice este ano pôde comemorar mais duas conquistas como professora. Ela ensinou as primeiras letras para a mãe, Joana Reis Barbosa, de 58 anos, e para a avó, Raimunda Barbosa, de 76 anos. "Foi uma luta, mas deu tudo certo", conclui a professora Helenice.
3
Título
Ademilton Pereira de Medeiros
Resumo
30 anos - Pombal (PB)

Os números conquistados ao longo de nove anos de atuação das Alfabetização Solidária são excepcionais, mas insuficientes para captar os desdobramentos da iniciativa. Esse é o caso de Ademilton Pereira de Medeiros, 30 anos. Há sete, ele se tornou um alfabetizador em Sítio Coatiba, nas imediações de Pombal, na Paraíba. "Eu tinha dois filhos para criar, mas nada de profissão e nada de emprego. Quando surgiu a oportunidade de dar aulas, fiquei até com medo de não conseguir", lembra. Para piorar a situação, Ademilton foi recebido na comunidade, em uma de suas primeiras tentativas de reunir alunos, com uma certa hostilidade própria de quem nunca viveu uma experiência semelhante, . "Era duro convencer a comunidade que eu apenas queria ensinar", acrescenta. "Mas, aos poucos, algumas pessoas começaram a freqüentar as aulas, enquanto outras ficavam observando das janelas."

Vencida a resistência, Ademilton foi até presenteado em um aniversário que passou com os alunos de Sítio Coatiba. "Ganhei escova e pasta de dente, além de um sabonete", conta. "Fiquei tão emocionado que senti que valeu a pena meu esforço e dedicação. Peguei amor pelo ensino e não quis mais largar as salas de aula." E não largou mesmo. Posteriormente, Ademilton foi aprovado em um concurso público para professor da rede municipal de ensino. No ano passado, passou a dirigir a escola de Educação de Jovens e Adultos Professor Nilton Seixas. Nas quatro salas de EJA com cerca de 25 alunos cada, ele estima que 80% das pessoas sejam egressas das turmas da Alfabetização Solidária. Em 2005, Ademilton manteve seu histórico de conquistas: formou-se em pedagogia e participou da capacitação de novos alfabetizadores da Alfasol na região. "Foi incrível ver que meu trabalho cresceu tanto que já posso passar parte da minha experiência para outras pessoas", afirma.
4
Título
Maria Aparecida dos Santos
Resumo
15 anos - Nossa Senhora Aparecida (SE)
3º lugar oficial - Concurso de Redação 2006

“Começar a ler e a escrever é como uma epidemia sem cura, porque depois que a gente começa nunca mais quer parar”,  são essas as palavras da alfabetizanda Maria Aparecida dos Santos, de 15 anos, vencedora do IX Concurso de Redação da Alfabetização Solidária. Na redação que teve como tema “Os melhores anos da minha vida”, Maria escreve que os melhores anos estão acontecendo agora, que ela está se alfabetizando.

A aluna, nascida em São Miguel do Aleixo (SE), não teve uma infância fácil. Ela nunca freqüentou uma sala de aula, pois desde criança, precisou trabalhar na roça para ajudar os pais. Maria perdeu o pai aos dez anos de idade, e se casou em seguida. Mudou-se Itaquatiara, pequeno povoado de Nossa Senhora Aparecida, também no Sergipe, onde mora até hoje com o marido e o filho, Vitor, de dois anos.

Maria ingressou na AlfaSol em 2004, mas não pôde concluir o curso da primeira vez. No início deste ano, retomou as aulas e está aprendendo ao lado do marido Valdeci dos Santos, 21 anos. “É muito bom aprender e não quero mais parar”, ressalta. A alfabetizanda nem sonhava em ganhar o concurso, ficou muito feliz e está muito ansiosa para conhecer São Paulo, diz que sempre teve esse sonho.
5
Título
Honorina Maria Moraes da Silva
Resumo
51 anos - Rio Piracicaba (MG)
2º lugar oficial – Concurso de Redação 2006

A alfabetizanda Honorina Maria Moraes da Silva, de 55 anos, venceu o 2° lugar oficial do IX Concurso de Redação da AlfaSol.

Nascida em Rio Piracicaba (MG), a aluna do Vale Alfabetizar tem uma história de luta para contar. Mãe de cinco filhos, avó de sete netos e viúva há 17 anos, ela precisou voltar ao mercado de  trabalho. Há quinze anos ela trabalha como cozinheira no restaurante da Companhia Vale do Rio Doce, no município. O trabalho fez com que ela percebesse a importância de dominar a leitura e a escrita, ferramentas necessárias em sua rotina de trabalho.

Honorina já havia freqüentado a escola até a 4° série do ensino básico, mas precisou interromper os estudos para ajudar a família com as despesas de casa. “Apesar de já ter ido à escola, eu não lembrava muita coisa e tinha muita vontade de prosseguir meus estudos”, conta. Em março deste ano, com o incentivo de algumas amigas, a aluna se matriculou na sala de aula do Vale Alfabetizar. “Na escola eu pude relembrar algumas coisas e aprender muita coisa nova.” As operações matemáticas, que eram sua maior dificuldade, já não são mais um problema. “Eu faço muitas contas no meu dia-a-dia, preciso pesar as mercadorias, dividir o que temos pelo número de pessoas”, conta.

Honorina pretende ingressar na Educação de Jovens e Adultos, e não desistirá dos estudos porque pretende ajudar no futuro dos netos.
6
Título
Reginaldo Ribeiro Mota
Resumo
58 anos - Riachão do Dantas (SE)
1º lugar – júri oficial - Concurso de Redação 2006

“A história da minha vida é muito interessante, tudo que sei aprendi com a vida”, conta Reginaldo Ribeiro Mota, de 59 anos, vencedor do 1° lugar oficial do IX Concurso de Redação da Alfabetização Solidária. Reginaldo nasceu no sul da Bahia, mas desde os dois anos mora em Riachão do Dantas (SE) e se diz sergipano de coração. Ele não tinha pai, não tinha uma casa e não tinha estudo. Criou-se superando as dificuldades que a vida lhe impôs.

Aos 12 anos, um senhor o convidou para trabalhar como artesão. Ele ensinou o garoto a confeccionar bolsas, selas e outros artigos em couro, e ele realmente tinha o dom para isso.

“Tem selas que fiz que foram vendidas na França”, conta orgulhoso.Sua mãe morreu quando ele tinha 19 anos e ele seguiu em frente com os irmãos. Aos 20 se casou, e hoje ainda é o mesmo homem apaixonado da juventude. Ele teve três filhos e se preocupou para que todos tivessem uma boa educação. O sonho de aprender a ler e a escrever nunca se pagou da mente de Reginaldo. “O que mais me entristecia era ir ao cinema na infância e não conseguir ler as legendas dos diálogos entre os personagens”, se referindo ao cinema mudo.

No começo desse ano, Reginaldo passou a freqüentar as aulas da Alfabetização Solidária e pouco tempo depois já se sentia realizado. “Eu aprendo com facilidade, a leitura se tornou uma paixão”. Força de vontade é o que não falta para o aluno, que agora também está se dedicando a matemática.

“Estou aprendendo as quatro operações, mas por enquanto só sei somar”. Reginaldo acrescenta que tem um espírito jovem e ainda tem muito o que aprender. Ele conta que um dia estava lendo um jornal quando viu a palavra filantropia, guardou a palavra na mente e saiu em busca do seu significado, o aluno decidiu que queria fazer algum serviço filantrópico. Então, teve a iniciativa de montar um grupo de pessoas da sala de aula da Alfasol que têm problemas de alcoolismo, o grupo compartilha suas experiências a fim de se recuperarem do vício.

Reginaldo que já foi alcoólatra, mas diz que hoje dedica todo seu tempo livre à leitura.
7
Título
Um exercício de cidadania
Resumo
O direito ao voto é, muitas vezes, deixado de lado por aqueles que não tem mais a obrigação legal de comparecer às urnas. Por essa razão, a alfabetizadora Raimunda Campos Pimenta, do Vale Alfabetizar, programa realizado em parceria com a Fundação Vale do Rio Doce e a Alfabetização Solidária no município de São Luis (MA), decidiu realizar uma atividade para estimular seus alunos - a maioria, idosos - a comparecerem às urnas e exercerem sua cidadania. "A idéia foi reproduzir na sala de aula algumas etapas do processo eleitoral", explica.

A atividade completa, entre campanha, eleição e apuração, levou uma semana para ser concretizada e foi realizada no mês de setembro. O primeiro passo foi uma explicação da professora sobre como funciona uma eleição, o que é o voto direto e o que são votos nulos e brancos.

Em seguida, a alfabetizadora procurou despertar nos alunos o interesse pela  disputa dos cargos de presidente e governador e pediu aos alunos que se candidatassem. Houve quatro "candidatos" para cada uma das funções, que fizeram suas propostas e as apresentaram para os alunos-eleitores. Nelas, estavam incluídos temas como educação, trabalho, saúde e saneamento básico. A última etapa foi a eleição simulada, que contou com urna de papelão, apuração dos votos e indicação do vencedor.

Os candidatos eleitos foram o Sr. Cláudio Pinto Duarte, de 74 anos, escolhido para o cargo de presidente, e Maria Olímpia Pinto Gomes, de 85 anos, eleita governadora. A plataforma de campanha do Sr. Cláudio não incluía temas específicos: apenas disse que queria beneficiar as pessoas, prometendo que alguma coisa melhor nasceria como reconhecimento pelos votos que recebeu. "Fiquei muito feliz e emocionado quando todos bateram palmas e me elegeram", conta o aluno, que salientou considerar a escola muito mais do que um lugar para aprender, já que fez muitos amigos. "Durante a eleição na sala de aula descobri que tenho mais amigos do que imaginava".

A governadora eleita também ficou feliz com a vitória. "Prometi que se os alunos me ajudassem a ter o que eu queria, eu iria ajudá-los depois", explicou Maria Olímpia. E, para surpresa dos alunos, o evento contou com a cobertura da TV Mirante,  retransmissora da Rede Globo, que, ao saber da atividade, decidiu realizar a cobertura da última etapa. A matéria foi veiculada no jornal local, trazendo ainda mais satisfação não só para os eleitos, mas a todos os demais alfabetizandos que participaram da "simulação". "Muita gente me viu na TV e veio comentar depois", relata, satisfeito, o Sr. Cláudio.

(Dez/2006)
8
Título
Um recomeço aos 92 anos de idade
Resumo
Disposição e vigor são palavras que representam Porfírio Ferreira Tocantins. Aos 92 anos, Porfírio acaba de concluir o curso de alfabetização promovido pela AlfaSol em parceria com a empresa Schincariol no município de Benevides (PA).

Além dos estudos, que pretende dar continuidade após ser alfabetizado, Porfírio encontra tempo para fazer hidroginástica, ginástica adaptada e ainda trabalha - mas agora, apenas nas horas vagas. Há aproximadamente um ano, após um pequeno problema de saúde, o médico recomendou que ele fizesse atividades físicas regulares e indicou o Centro de Convivência da Prefeitura da cidade. Junto com a esposa, Sebastiana Lima da Costa, de 80 anos, Porfírio começou a freqüentar as atividades oferecidas pelo Centro e descobriu que poderia ser alfabetizado aos 92 anos de idade. Não perdeu a oportunidade e topou freqüentar as aulas.

Ele viveu grande parte da sua história em Belém, onde trabalhou na lavoura e nos portos. Há dezessete anos, cansado da vida agitada e violenta da cidade grande, mudou-se para Benevides com sua esposa. Os seus nove filhos e os três netos seguiram seus caminhos e encontram-se espalhados pelo Brasil.

Porfírio, que não teve a oportunidade de estudar quando jovem devido à distância da escola e a necessidade de trabalhar, não pretende parar na alfabetização. Ele e sua esposa deverão continuar os estudos no próximo ano através do EJA ( Educação de Jovens e Adultos) em uma escola da rede municipal de Benevides.

Ele conta com a força dos amigos que conquistou nas aulas de alfabetização e no Centro de Convivência para continuar os estudos. Porfírio e sua esposa vão ao Centro todos os dias no período da manhã para as aulas e as atividades, D. Sebastiana também aproveita para fazer aulas de trabalhos manuais. Porfírio soube como aproveitar as oportunidades que surgiram em sua vida, venceu as barreiras e enfrentou os preconceitos. Hoje, como resultado de suas conquistas, pode dizer a todos que sabe ler e escrever.

(Dez/2006)
9
Título
A arte que transforma a vida
Resumo
Ensinar é uma arte. E a alfabetizadora Elenilde da Silva Oliveira Diniz, do programa Vale Alfabetizar, uma parceria da Fundação Vale do Rio Doce com a Alfabetização Solidária, levou a teoria ao pé da letra. A fim de tornar as aulas ainda mais interessantes e atraentes para seus alunos de São Luís (MA), ela aproveitou seu conhecimento artístico e associou a alfabetização ao artesanato. "Foi uma forma de unir o útil ao agradável, aproveitando a arte que estamos criando para passar os conceitos", explica.As aulas de artesanato acontecem uma vez por semana apenas para os alunos que desejam participar. O primeiro trabalho da turma foi realizado em maio de 2006, com o uso de meia de seda. Orientados pelos alfabetizadores, os alunos prepararam flores para presentear as mães. A atividade deu tão certo que a professora inseriu novos materiais e finalidades, como papel para a prática de dobraduras que resultaram em cestas, fruteiras e portas-revistas, ou pinturas em tecido, como panos de prato e guardanapos. "Cada aluno acabou se destacando em algum tipo de atividade", salienta.

Todo o trabalho desenvolvido é contextualizado e os alunos aos poucos vão sendo informados se estão utilizando cores primárias ou secundárias, se o desenho escolhido tem formas geométricas ou linhas curvas, ou, ainda, se as frutas que estão sendo pintadas são ou não medicinais.

Além do atrativo extra para o ensino, a atividade artística permitiu um ganho financeiro para alguns alunos. É o caso da aluna Maria Felícia da Conceição Costa, de 55 anos. Antes de freqüentar o curso do Vale Alfabetizar, ela praticamente só cuidava da casa. Hoje, graças ao que aprendeu, ela descobriu em si um lado artístico e vende os produtos que elabora, recebendo inclusive encomendas. "Faço muitos vasos, pratos e cestas em papel dobradura e também pinturas para panos de prato", conta ela, acrescentando que a escola é uma diversão, onde se aprende a ler, a fazer artesanato e se consegue novas amizades.

O sucesso da iniciativa é facilmente avaliado "Muitas pessoas viram o resultado do aprendizado e pretendem efetivar sua matrícula para freqüentar o próximo módulo", finaliza Elenilde.

(Dez/2006)
10
Título
Revendo a própria vida na tela do cinema
Resumo
A arte de educar vai muito além de ajudar o aluno na identificação mecânica de sinais. É um processo complexo, que objetiva capacitar o aluno/aprendiz na compreensão do mundo e de tudo que está a sua volta. Por essa razão, as professoras Fabíola Viana Sá Menezes e Ana Carolina Soares, do programa Vale Alfabetizar, uma parceria da Fundação Vale do Rio Doce com a Alfabetização Solidária, promoveram, em São Luís (MA), a exibição do filme "2 filhos de Francisco", que retrata a vida da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano, para os alunos das duas salas de aula.

A novidade agradou bastante, já que a maioria dos 45 alunos, na faixa etária entre 35 e 76 anos, jamais tinham ido ao cinema. "Escolhemos esse filme porque apresenta uma realidade bem próxima dos alfabetizandos, suas dificuldades e luta pela vida, além da linguagem ser bastante acessível", explica a professora Fabíola. A atividade consumiu uma semana. Isso porque as professoras conversaram antes com os alunos sobre o filme, detalhando o enredo e o porquê de sua escolha. Para que todos pudessem assistir, foram reservados dois dias de exibição. Na aula seguinte, as professoras levaram recortes de jornais e revistas, tesouras, colas, cartolina, papel pardo e canetas coloridas. O objetivo era que os alfabetizandos preparassem um painel de acordo com a imagem que viram e entenderam do filme. Com a apresentação do painel, as professoras conduziram um debate entre os alunos sobre a história, que se transformou em uma boa oportunidade para que fossem explicados os motivos do sucesso obtido pela famosa dupla sertaneja: perseverança, trabalho e apoio familiar.

A aluna Otacília Dias Gomes, de 45 anos, gostou muito do filme. Nunca tinha ido ao cinema e também se identificou muito com a história, que lembra um pouco suas dificuldades. "Não pude estudar quando criança porque, onde eu morava, não tinha escola. Depois, vim para São Luis para trabalhar em casas de família, casei aos 17 anos e tive sete filhos", relembra. Apenas este ano conseguiu encontrar-se com o aprendizado da escrita e leitura. Em seu painel, buscou retratar politicamente a questão, destacando a boa vida dos políticos em detrimento da população mais carente.

Para Maria José Penha Lindoso, de 50 anos, também presente à sessão de cinema, a experiência foi muito importante, porque, segundo ela, assim é mais fácil aprender. "A gente está olhando, a professora vai explicando e tirando dúvidas quando surgem", conta. Na infância, Maria José chegou a ir à escola, mas tinha esquecido muita coisa do que aprendera. "Meus irmãos estudaram, um é economista, outro, professor". Agora, viúva, mãe de sete filhos e cinco netos, voltou aos estudos e está realizando algo que sempre teve vontade de fazer.

(Dez/2006)
11
Título
Uma sala de aula inusitada
Resumo
O desejo de buscar a educação criou uma sala de aula inusitada em São Luis, no Maranhão. A transformação ocorreu num bar, localizado na periferia da cidade. De dia, o estabelecimento funciona normalmente, mas, nas noites de segunda a quinta-feira, a partir das 19h00, as portas do bar se fecham e o ambiente se prepara para receber um público diferente. É aqui que o alfabetizador Pablo Fabrício da Conceição, de 25 anos, introduz os alunos no mundo das letras, ensinando-os a fazerem contas e a expressarem seus sentimentos.

Assim como o local, as aulas ministradas não têm nada de convencional: o alfabetizador, que está concluindo sua formação em Educação Artística, usa os instrumentos que conhece bem, para estimular os estudos de seus alunos. “Percebi que eles aprendem pela imagem e, assim, elas são utilizadas com muita freqüência para que os alunos criem textos sobre o que estão vendo ou aprendam a escrever novas palavras”, conta Pablo. As imagens são levadas para a aula pelo próprio alfabetizador ou trazidas pelos alunos.

Os jogos teatrais são também bastante utilizados. Os textos são elaborados e encenados pelos próprios alunos, intensificando a dinâmica do aprendizado. “Os alunos passam a escrever e falar aquilo que entenderam da apresentação, aumentando seu vocabulário”, conta entusiasmado o alfabetizador. Por conta dessas atividades, as aulas são bem participativas e envolventes, animando o aprendizado e evitando a evasão dos alunos. Os próprios donos do bar, Reginaldo de Jesus de Souza, de 49 anos, e Olanda Rodrigues da Silva, de 32, são alunos de Pablo. Aliás, a idéia de ceder o estabelecimento partiu de Reginaldo, que achou o espaço do bar perfeito para a implantação de uma sala de alfabetização na região.

Depois que a sugestão foi aprovada, os dois colaboraram para a formação das turmas, recolhendo as inscrições dos interessados – todos os alunos são amigos, morando nas redondezas. A coordenação do curso ficou por conta da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), instituição parceira do Vale Alfabetizar, formada pela união entre a Alfabetização Solidária e a Fundação Vale do Rio Doce.

Durante o dia, Reginaldo trabalha como carpinteiro na Companhia Vale do Rio Doce, enquanto Olanda cuida do bar. À noite, eles se juntam aos demais alunos para aprender a ler e escrever.

“Quando era criança, meu pai não tinha condições de colocar os filhos no colégio, porque era muito longe. Assim, ele mesmo acabou nos ensinando alguma coisa”, relembra Olanda. Agora, com a possibilidade que surgiu, ela aproveitou para iniciar seus estudos. A matéria que ela mais gosta é matemática. “Meu marido sabe mais do que eu e é muito bom para fazer contas”, conclui ela.

(Dez/2006)
12
Título
A realização de um grande sonho
Resumo
"Vale, valeu a pena. Hoje aprendi a ler e escrever. Vale, valeu a pena. E cantando quero te agradecer". Esse é o refrão da música que Raimundo Clemilson Pinheiro Vieira, 31 anos, escreveu para homenagear o programa Vale Alfabetizar, uma parceria entre a Alfabetização Solidária e a Fundação Vale do Rio Doce. Clemilson, como é conhecido em Paragominas(PA), acaba de gravar a canção em um estúdio. " Meu maior sonho era gravar a minha música. Nunca tinha pisado em um estúdio, fiquei tão nervoso que achei que não ia conseguir cantar", relata emocionado.

"Cantor e compositor" desde criança, Clemilson costuma dizer que nasceu e foi criado na música, e orgulha-se ao dizer que esse é o seu dom. No entanto, a primeira oportunidade que teve de mostrar o seu trabalho foi somente agora. "Sempre morei na zona rural, vivendo como agricultor.

Tive que trabalhar desde pequeno para ajudar meu pai", diz.E esse foi um dos motivos que o impediram de aprender a ler e escrever quando era pequeno, por isso foi alfabetizado apenas esse ano." Quando fiquei sabendo que o Vale Alfabetizar oferecia aulas no período da noite, não deixei a oportunidade escapar". Esse mês Clemilson conclui o curso e se apresenta na cerimônia de formatura, cantando ao vivo para todos os presentes. "Será emocionante cantar em minha própria formatura", comenta feliz.

Segundo ele, ser alfabetizado foi apenas um passo para a sua longa trajetória. "Vou continuar estudando e aprender cada dia mais. Eu abri os olhos, estou vendo a vida de outra maneira", diz.

Antes de aprender a escrever, suas músicas ficavam registradas apenas na sua memória. Assim, algumas das suas criações foram perdidas ao longo dos anos. "Agora posso guardar as canções, já escrevi mais de vinte", conta o artista. Cantar sempre foi seu sonho, apoiado pela família e pelos amigos não desistiu, e agora se sente muito feliz por realizá-lo. Assim como diz um dos versos de sua música, ele tem vontade de gritar para todo o Brasil ouvir: "Vale, valeu a pena!".

Conheça a letra da música:

Vale Alfabetizar
Uma porta que se abre
Uma chance para educar
Todos aqueles que não sabem
Quero te agradecer
Vale, UEPA e Prefeitura
Por que aprendi a ler
Sou mais homem cidadão com estrutura
E o que aprendi sempre vou levar ao meu lado
Analfabeto pra mim é coisa do passado
E almofada não vai mais o meu dedo sujar
Vale, valeu a pena!
Hoje aprendi a ler e escrever
Vale, valeu a pena!
E cantando quero te agradecer
Vejo o brilho no olhar
E as letras na memória
Os velhinhos a estudar
Vão buscando a vitória
Não importa a idade
O que vale é a força de vontade
Eu não vou perder o ônibus na estação
Então vou fazer o que diz meu coração
Que só quer gritar para todo Brasil ouvir:
Vale, valeu a pena!
Hoje aprendi a ler e escrever
Vale, valeu a pena!
E cantando quero te agradecer

(Dez/2006)
13
Título
Música clássica para todos: alfabetizandos assistem apresentação da OSB em São Luís, MA
Resumo
As cortinas se abrem e a imagem que começa a surgir encanta a todos os presentes. Os músicos e os mais diversos instrumentos vão aparecendo, compondo um incrível cenário: a Orquestra Sinfônica Brasileira. Os olhos brilham fascinados por uma imagem nunca antes imaginada, e os ouvidos agradecem a leveza e harmonia daquelas notas musicais. 

Essas foram algumas das sensações experimentadas por um grupo de alunos do Vale Alfabetizar, uma parceria entre a Alfabetização Solidária (AlfaSol) e a Fundação Vale do Rio Doce. Em São Luís conta com a parceria da Universidade Federal do Maranhão. “Foi a primeira vez que eles tiveram contato com a música clássica, todos se encantaram, ficaram maravilhados com a apresentação”, informa o alfabetizador Rodrigo Campelo Ferreira, um dos motivadores do passeio. A oportunidade foi única, pois essa foi uma das poucas vezes que a orquestra se apresentou na cidade. “Eventos como esse são muito raros em São Luís, especialmente os gratuitos”, diz Rodrigo. 

A apresentação não ficou apenas na memória dos alunos: Rodrigo fez questão de levá-la para a sala de aula. No começo da discussão sobre o evento, os alfabetizandos se diziam muito simples perto da grandiosidade da orquestra. “Eles se consideram privados de cultura”, conta o alfabetizador. 

Durante a aula foram abordados os temas das músicas apresentadas, o contexto histórico em que foram criadas e o autor. Depois dessa análise, os alunos entenderam que não podem perder oportunidades como essa e se interessaram ainda mais pelo assunto.

A arte faz parte das aulas oferecidas pelos alfabetizadores em São Luís, que utilizam obras de artistas brasileiros em dinâmicas e exibem filmes durante as aulas a fim de que eles relacionem a arte com suas experiências de vida. “Não é porque eles não sabem ler, que não sabem codificar os signos que estão presentes em suas vidas”, conclui Rodrigo.

(Dez/2006)
14
Título
Pais que aprendem com os filhos
Resumo
A história de Valdelina Oliveira da Silveira, de 51 anos, é muito parecida com a de muitos outros brasileiros. Nascida em Mutunópolis, no interior de Goiás, em uma família grande, de nove irmãos, trabalhou na roça desde criança para ajudar no sustento da casa. Chegou a morar na cidade, onde teve a oportunidade de freqüentar a escola por seis meses.

Quando acabou o casamento de seus pais, ela, a mãe e seus irmãos voltaram para a lavoura, para morar na casa da avó materna. Os estudos foram esquecidos e ficou o trabalho duro na roça. Aos 17 anos, a família resolveu tentar novamente a sorte na cidade de Mutunópolis, trabalhando em casas de família, já que a roça não oferecia muitas possibilidades. O irmão mais velho de Valdelina resolveu ir mais longe e rumou para o Pará. Após um período de três anos sem dar notícias, um primo apareceu, nos idos de 1973, para levar o resto da família para a região Norte do País.

Lá, Valdelina casou e teve seus três filhos. Trabalhou na roça também, mas, hoje, morando em Eldorado dos Carajás, que fica a 585 quilômetros de Belém, cuida apenas dos seus afazeres domésticos. Ela não precisa mais enfrentar as dificuldades do trabalho na roça, já que seu marido, que possui algumas casinhas alugadas em Serra Pelada, que fica a 42 quilômetros de sua cidade, cuida do sustento da família.

Seus filhos cresceram e já trabalham: o mais velho tem um emprego na prefeitura de Sapucaia, que fica a 100 quilômetros de sua casa, enquanto que o caçula, de 21, tem uma ocupação no laticínio da cidade. A filha do meio, com 24 anos, tornou-se professora e alfabetizadora, e foi ela quem reintroduziu a mãe no mundo das letras. Em 2006, Valdelina efetivou sua matrícula nos cursos do Vale Alfabetizar, uma parceria entre a Alfabetização Solidária e a Fundação Vale do Rio Doce. Aprendeu a ler e escrever pelas mãos de sua filha e agora já pode informar-se pelo jornal e ler a Bíblia, ou ainda, escrever cartas para seus entes queridos. No dia 19 de janeiro, exatamente um dia após completar 51 anos, ela estará celebrou sua formatura no curso de alfabetização - um momento que ficará na sua lembrança para sempre.

(Jan/2007)
15
Título
O primeiro passo
Resumo
"Não tem dinheiro que pague". É assim que Pedro Oralino Fernandes, de 51 anos, resume o que significou na vida dele o aprender a ler e escrever. Este pai de cinco filhos, que praticamente cruzou o Brasil de Norte a Sul, teve uma vida de muitas lutas e, certamente, de muitas vitórias.

Pedro nasceu em Santo Antonio do Sudoeste, uma cidadezinha do interior do Paraná, quase na divisa com a Argentina. Naquela época, só os bem-nascidos freqüentavam a escola e com ele não foi diferente. Seu pai, que tinha cinco filhos para criar, não pode mantê-los na escola e Pedro só estudou por dois anos, antes de se ocupar com o trabalho na lavoura. Em 1981, quando Pedro tinha 25 anos, a família decidiu que era hora de mudar de vida e rumaram numa viagem sem volta para o Pará. Lá, estabeleceram-se em Eldorado do Carajás e Pedro conseguiu um emprego na Funai,como fiscal de plantação, um trabalho que não exigia o conhecimento das letras. Depois, ingressou na Companhia Vale do Rio Doce e, hoje, está na função de vigia na Prefeitura Municipal da cidade.

Em 2006, decidiu estudar e efetivou sua matrícula no curso de alfabetização promovido pela Alfabetização Solidária em parceria com a Fundação Vale do Rio Doce. O prefeito da cidade, Sr. João de Castro Barreto, deu total apoio ao projeto pessoal de Pedro, permitindo que ele deixasse o posto de trabalho uma hora mais cedo para poder estudar. O resultado foi concretizado no dia 19 de janeiro, com a entrega do diploma de conclusão de curso realizada na cerimônia de formatura promovida na cidade. Para ele, a alegria pela conclusão dessa etapa é apenas o prenúncio do que ainda virá, já que Pedro pretende dar continuidade aos estudos.

"Ganhei novas chances no trabalho e mais confiança dos meus chefes, pois agora conheço mais as coisas", finaliza.

(Jan/2007)
16
Título
Ensinar e aprender: a realização de um sonho em Nova Era (MG)
Resumo
“Letramento é nadar no lago da alegria, navegar no rio da fantasia e desaguar no oceano da sabedoria de nossa vida.” A frase é parte integrante de uma poesia, escrita há muitos anos atrás por Cristiana Alves Batista para retratar sua paixão pela educação quando ainda cursava magistério. Naquela época, tornar-se alfabetizadora era um sonho ainda bastante distante da realidade. Após trabalhar em supermercado, lanchonete e outros segmentos diferentes dos que gostaria, Cristiana pôde realizar este sonho somente agora, aos 25 anos de idade, ao tomar conhecimento de que a prefeitura de sua cidade, Nova Era, em Minas Gerais, estava buscando pessoas interessadas em dar aulas para jovens e adultos nos cursos do Vale Alfabetizar. Foi selecionada pela Secretaria de Educação e recebeu a capacitação pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Segundo ela, ao ser selecionada, sua alegria foi tanta que mal podia acreditar que iria dar aulas. “Mas, satisfação maior, foi presenciar a formatura de meus alunos no mês passado”.

Descendente da 3ª geração de uma família de agricultores em fazendas latifundiárias de plantação de arroz, feijão, milho e produção de cachaça, a trajetória pessoal dessa mineira é permeada de memórias e histórias difíceis de contar. Ela lembra que, certo dia, quando ainda muito criança, estava acompanhando seus pais, tios e avós a caminho da roça quando uma cobra cascavel picou seu tio, na época com apenas oito anos de idade, e ele acabou morrendo por falta de atendimento médico adequado. “O município era tão pobre que não tinha nem hospital! Tudo que havia era um orfanato e uma maternidade no município vizinho de João Molevade”, conta. A cobra que matou seu tio tinha 12 anos de idade - ela conta que a quantidade de nós do rabo da cascavel equivale a quantidade de anos que ela tem. Estas e outras peculiaridades de vida das comunidades atendidas, temperadas com tristezas e alegrias, mostram como é diferenciado o trabalho de educação de jovens e adultos. São muitas as “Cristianas” oriundas de famílias simples e que não tiveram oportunidade de estudar.

Mas a história de pelo menos esta Cristiana já tomou um outro rumo! Cheia de esperança em um futuro melhor, ela já iniciou o curso de Pedagogia na Universidade de Uberaba e pretende, além de continuar a dar aulas, concretizar outro sonho: viajar muito pelo Brasil e outros países. “Por enquanto viajo pelo mundo todo somente por meio dos livros”, brinca Cristiana, que finaliza ressaltando que foi muito gratificante sua experiência como alfabetizadora do Vale Alfabetizar.

(Julho/2007)
17
Título
Alfabetizanda: Naíde de Arruda Pinheiro, concluinte da turma de 2005
Resumo
Dona Naíde de Arruda Pinheiro, 67 anos, mãe do atual prefeito municipal da cidade de Bacabeira, no Maranhão, é um exemplo de perseverança a ser seguido. Ela lembra que enquanto estava em período de aula numa das turmas de alfabetização de jovens e adultos da AlfaSol, tentava convencer os mais jovens que encontrava pelas ruas para que agarrassem, como ela fez, a oportunidade de estudar. Ela chegou a freqüentar a escola, mas logo se casou e largou os estudos para se dedicar mesmo aos dois filhos e marido. Para seus filhos, fez questão de proporcionar uma boa educação e isto se reflete hoje na vida deles que se tornaram respeitados políticos de Bacabeira.

Ela explica que a vontade de ler foi a principal razão que a levou a voltar a estudar a esta altura da vida.  O que mais a impressionou, foi a quantidade de pessoas de idade avançada reingressarem ou ingressarem pela primeira vez nos estudos. Ela mesma, ficou sabendo através de uma amiga que já estava quase terminando os oito meses de curso da AlfaSol. Naquela época, seu filho mais novo, José Venâncio Correa Filho era secretário de Finanças do município e hoje, aos 36 anos, é prefeito municipal. 

Dona Naíde foi muito apoiada pela família . "Meus filhos e noras  sempre me incentivaram muito", faz questão de salientar D. Naíde. Conforme eles, era o mínimo que poderiam fazer para retribuir tudo que lhes foi proporcionado pela mãe durante toda sua vida.  E agora Dona Naíde se sente muito feliz por ter realizado este sonho e como ela mesma diz, vai permanecer porque seu desejo continua sendo adquirir mais e mais conhecimentos. E isso realmente vem acontecendo: desde que   participou da turma de alfabetização,  seu maior prazer passou a ser os livros. "A alfabetização despertou em minha mãe novas possibilidades, como o seu sensível gosto pela leitura", concluiu seu filho, José Venâncio.

(Julho/2007)
18
Título
Alfabetização: aliada para vencer a timidez
Resumo
"Eu era tão tímida, que morria de vergonha de atender às pessoas na porta de minha casa",  diz Raimunda Luiza de Araújo, 44 anos, moradora do município de Missão Velha, no Ceará. Ela conta que, apesar de seus pais a matricularem na escola quando era criança, nunca chegou a freqüentá-la. "Eu me recusava a ir, pois era muito tímida", justifica. E não havia maneira de fazer Raimunda sair de casa para freqüentar as aulas, e assim passou grande parte de sua vida, dentro de casa. Tinha muita vergonha de conversar com as pessoas e essa timidez se revelou mais seriamente depois de mais velha devido à falta de estudos, conforme ela mesma assume.Após o falecimento de seu pai, ela ficou morando apenas com a mãe, sua maior companhia e continuou sem estudar e sem trabalhar, apenas ajudando no serviço doméstico.

Quando a alfabetizadora Fatinha, como carinhosamente ficou conhecida entre seus alunos, no município de Missão Velha, foi à casa de Raimunda para convidá-la a participar do curso de alfabetização de jovens e adultos da AlfaSol, esta finalmente aceitou porque tinha consciência de que precisava fazer algo que mudasse sua realidade. E assim, aos 43 anos, pela primeira vez em sua vida teve contato com a leitura e a escrita. "Tremi tudo, mas fiz", é como descreve as primeiras vezes em que pegou no lápis para escrever com a ajuda de Fatinha. Hoje, Raimunda está cursando o 2º ano do Ensino Fundamental (EJA) e o seu maior prazer é estudar.

Desde que ingressou nos estudos, sentiu uma enorme diferença no seu jeito de encarar o mundo, porque agora se sente mais solta para conversar com as pessoas e fazer amigos.  "Meu dia-a-dia também melhorou muito. Hoje consigo até ir ao banco e pagar as contas da casa, uma tarefa simples, mas que antes eu não conseguia fazer", conta. O sonho que hoje alimenta é a prova de que a cada dia que passa tem conseguido superar ainda mais sua timidez: "Quem sabe um dia eu me torne professora também".

(Julho/2007)
19
Título
Sala de aula peculiar
Resumo
No coração da cidade de São Paulo, um grupo de dezessete pessoas reúne-se de segunda a quinta-feira, a partir das 18h30, na sala de reuniões do quarto andar de um edifício de dez andares, para aprender a ler e escrever. São moradores do próprio prédio, beneficiados pelo empenho da alfabetizadora e vizinha Edilena Ribeiro da Silva, de 37 anos, que, no ano passado, teve a idéia de montar um turma de alfabetização no local.

A história da sala de aula acompanha a peculiaridade do prédio onde está instalada. Há quatro anos, os moradores invadiram o edifício da Rua Guaianazes, onde um dia funcionou um hotel, e por meio de um acordo com o proprietário, ganharam provisoriamente o direito de residir no local. Durante esse período, muitos dos primeiros moradores deixaram o prédio e novos moradores vieram. A infra-estrutura da construção também sofreu a ação do tempo e da falta de reparos, ficando bastante danificada. Devido à ação de vândalos, a antiga fiação, que servia o prédio, foi arrancada para comercialização e o prédio ficou às escuras. Os moradores improvisaram e a questão foi remediada com lampiões a gás. Hoje, existe uma negociação em andamento, envolvendo a associação de moradores e a Prefeitura Municipal de São Paulo, para verificar a possibilidade de recuperação do edifício a fim de transformá-lo em moradias para as pessoas que lá residem ou mesmo uma possível transferência para outro local mais adequado.

Enquanto a decisão definitiva não vem, Edilena decidiu oferecer aos vizinhos a oportunidade de voltar a estudar. Levou a proposta à Universidade Presbiteriana Mackenzie, parceira da AlfaSol na condução do Programa Grandes Centros Urbanos (PGCU), e foi aprovada. Contando com o apoio da associação dos moradores do prédio, que estimulou a efetivação das matrículas, a alfabetizadora conseguiu compor a turma e levar adiante o projeto, a despeito de todas as dificuldades. Para montar a sala de aula, o Mackenzie cedeu carteiras, transportadas ao edifício por meio de um carreto financiado pela alfabetizadora com a bolsa auxílio que recebe para dar as aulas. O mesmo aconteceu com a lousa.

Com a sala de aula organizada, a alfabetizadora enfrenta agora o desafio de manter os alunos freqüentando o curso. "Eles precisam compreender que é preciso ter garra e força de vontade para que possam mudar de vida", explica. Para ela, falta aos moradores conscientização sobre a importância do estudo para uma vida melhor. "Atualmente, quando surge alguma dificuldade financeira, eles resolvem momentaneamente a questão catando latinhas de alumínio para reciclagem, sem pensar em planos mais concretos para o futuro".

Os alfabetizandos de Edilena têm necessidades distintas. Alguns precisam aprender a ler e escrever, enquanto que outros preferem aprender a fazer contas. "Mas, no fundo o objetivo é o mesmo: todos desejam ter um pouco mais de autonomia, como não depender das pessoas para ler o destino do ônibus no momento de tomar uma condução", conta a alfabetizadora. “Além disso, a maioria tem vergonha da sua condição de analfabeto”, completa.

Poucos alunos de Edilena nasceram em São Paulo, inclusive ela, uma paranaense da cidade de Xambrê, na região de Maringá. Aos 20 anos, deixou Pérola, município vizinho à sua cidade natal, onde então residia, para vir a São Paulo trabalhar como babá para uma família em Higienópolis. Permaneceu neste emprego por dez anos e, nessa ocasião, aproveitou o período para terminar o Ensino Fundamental e o Médio. Prestou vestibular para Pedagogia no próprio Mackenzie e foi aprovada, mas, ao concluir o primeiro ano do curso, acabou trancando a matrícula por não conseguir pagar as mensalidades. "Na ocasião, deixei de procurar alternativas que me ajudassem a terminar a faculdade", diz ela, acrescentando que, atualmente, seu retorno aos estudos foi garantido por uma bolsa concedida pelo Mackenzie.

Agora, além de alfabetizar, Edilena faz um estágio na escola municipal Celso Leite, localizada na Bela Vista. Ela acompanha um aluno especial matriculado em uma sala de aula regular, auxiliando-o no entendimento das lições e na execução das tarefas.

(Agosto/2007)
20
Título
Voltando a ser feliz!
Resumo
"Antes da Alfabetização Solidária, eu só sabia assinar o meu nome", conta Aldina Maria da Conceição, 69 anos, sobre sua pouca experiência com os estudos. Nascida em Juazeiro do Norte, na Bahia, ficou órfão de mãe aos dois meses de idade. Criada pelo pai, cresceu ajudando-o com o trabalho na roça e devido à distância do centro da cidade, nunca teve a oportunidade de freqüentar uma escola. "Minha jornada de trabalho começava às seis da manhã e só terminava às cinco da tarde. Além de muito cansada eu não tinha como ir até o centro para estudar", relembra.

E assim Conceição foi levando seus dias até casar-se, em 1961, e ir morar com o marido no município de Missão Velha, no Ceará, onde também moravam seus sogros. Ela conta que na época ficou muito feliz e cheia de esperanças, pois acreditava que saindo da roça e indo morar na cidade conseguiria realizar o antigo sonho de aprender a ler e escrever. "Assim que me mudei consegui frequentar o Mobral, mas foi por pouco tempo, pois meu marido logo implicou! Ele não gostava que eu saísse de casa e eu tive de parar de estudar. Só consegui aprender a escrever meu nome".
Conceição então passou anos dedicando-se somente aos filhos, marido e aos afazeres da casa. "Na época tive de escolher entre manter meu casamento e estudar. Nunca me conformei com a situação, mas não tinha como mudá-la", lamenta.

Com o passar do tempo, porém, o casamento não deu certo e a separação foi inevitável. "Fiquei muito abalada, afinal, eu havia aberto mão dos meus sonhos pelo casamento e tudo acabou indo por água abaixo. Agora, além de não saber ler nem escrever, ainda era uma mulher separada, o que também não é nada fácil em uma cidade pequena", diz referindo-se ao preconceito que sentiu na época. Ela conta que achava que com a separação teria pelo menos a liberdade para fazer tudo o que sempre quis, incluindo, estudar. Mas, ao contrário do que imaginou, sentiu-se tão frustrada e envergonhada com a sua condição de separada que mal conseguia sair de casa. "No fundo me sentia tão presa quanto na época de casada, pois tinha muita vergonha de encontrar com as pessoas da cidade depois da separação devido aos boatos maldosos que sempre acontecem em cidades pequenas", explica.

Até que em 2006 recebeu a visita da alfabetizadora da AlfaSol Fatinha, que a convidou e insistiu para que se matriculasse no curso da Alfabetização Solidária que seria realizado no município em parceria com a Universidade Regional do Cariri.  Além do tempo, que também se encarregou de ajudar a amenizar as dores e a vergonha, a visita de Fatinha foi o empurrão que faltava pra que Conceição levantasse a cabeça e seguisse em frente. "Coloquei para fora a coragem que parecia ter perdido, deixei os olhares maldosos de lado e me matriculei! Foi a melhor coisa que fiz, pois aos 68 anos de idade voltei a sentir alegria em viver", diz.

Cheia de perspectivas por finalmente estar realizando seu antigo sonho, Conceição está tão animada que agora jura que não deixará mais de estudar.  E se depender de sua boa vontade isso certamente irá acontecer! Prova disso é que hoje já está cursando a 2ª série da do ensino fundamental - Educação de Jovens e adultos (EJA).

Ela conta que apesar do que sofreu, tudo valeu a pena pelos seus três filhos, hoje todos formados em cursos de nível superior. "Eles estão criados, vivem em São Paulo e levam uma boa vida. Já fiz a minha parte, agora é cuidar de mim, continuar estudando e viajando para visitá-los", diz, lamentando apenas o fato de não ter voltado a estudar assim que se separou. "Se tivesse voltado antes, talvez hoje seria professora", complementa. "Por enquanto, vou me realizando com o prazer e a alegria inexplicáveis que sinto ao conseguir ler um livro", completa muito animada.

(Agosto/2007)
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