No coração da cidade de São Paulo, um grupo de dezessete pessoas reúne-se de segunda a quinta-feira, a partir das 18h30, na sala de reuniões do quarto andar de um edifício de dez andares, para aprender a ler e escrever. São moradores do próprio prédio, beneficiados pelo empenho da alfabetizadora e vizinha Edilena Ribeiro da Silva, de 37 anos, que, no ano passado, teve a idéia de montar um turma de alfabetização no local.
A história da sala de aula acompanha a peculiaridade do prédio onde está instalada. Há quatro anos, os moradores invadiram o edifício da Rua Guaianazes, onde um dia funcionou um hotel, e por meio de um acordo com o proprietário, ganharam provisoriamente o direito de residir no local. Durante esse período, muitos dos primeiros moradores deixaram o prédio e novos moradores vieram. A infra-estrutura da construção também sofreu a ação do tempo e da falta de reparos, ficando bastante danificada. Devido à ação de vândalos, a antiga fiação, que servia o prédio, foi arrancada para comercialização e o prédio ficou às escuras. Os moradores improvisaram e a questão foi remediada com lampiões a gás. Hoje, existe uma negociação em andamento, envolvendo a associação de moradores e a Prefeitura Municipal de São Paulo, para verificar a possibilidade de recuperação do edifício a fim de transformá-lo em moradias para as pessoas que lá residem ou mesmo uma possível transferência para outro local mais adequado.
Enquanto a decisão definitiva não vem, Edilena decidiu oferecer aos vizinhos a oportunidade de voltar a estudar. Levou a proposta à Universidade Presbiteriana Mackenzie, parceira da AlfaSol na condução do Programa Grandes Centros Urbanos (PGCU), e foi aprovada. Contando com o apoio da associação dos moradores do prédio, que estimulou a efetivação das matrículas, a alfabetizadora conseguiu compor a turma e levar adiante o projeto, a despeito de todas as dificuldades. Para montar a sala de aula, o Mackenzie cedeu carteiras, transportadas ao edifício por meio de um carreto financiado pela alfabetizadora com a bolsa auxílio que recebe para dar as aulas. O mesmo aconteceu com a lousa.
Com a sala de aula organizada, a alfabetizadora enfrenta agora o desafio de manter os alunos freqüentando o curso. "Eles precisam compreender que é preciso ter garra e força de vontade para que possam mudar de vida", explica. Para ela, falta aos moradores conscientização sobre a importância do estudo para uma vida melhor. "Atualmente, quando surge alguma dificuldade financeira, eles resolvem momentaneamente a questão catando latinhas de alumínio para reciclagem, sem pensar em planos mais concretos para o futuro".
Os alfabetizandos de Edilena têm necessidades distintas. Alguns precisam aprender a ler e escrever, enquanto que outros preferem aprender a fazer contas. "Mas, no fundo o objetivo é o mesmo: todos desejam ter um pouco mais de autonomia, como não depender das pessoas para ler o destino do ônibus no momento de tomar uma condução", conta a alfabetizadora. “Além disso, a maioria tem vergonha da sua condição de analfabeto”, completa.
Poucos alunos de Edilena nasceram em São Paulo, inclusive ela, uma paranaense da cidade de Xambrê, na região de Maringá. Aos 20 anos, deixou Pérola, município vizinho à sua cidade natal, onde então residia, para vir a São Paulo trabalhar como babá para uma família em Higienópolis. Permaneceu neste emprego por dez anos e, nessa ocasião, aproveitou o período para terminar o Ensino Fundamental e o Médio. Prestou vestibular para Pedagogia no próprio Mackenzie e foi aprovada, mas, ao concluir o primeiro ano do curso, acabou trancando a matrícula por não conseguir pagar as mensalidades. "Na ocasião, deixei de procurar alternativas que me ajudassem a terminar a faculdade", diz ela, acrescentando que, atualmente, seu retorno aos estudos foi garantido por uma bolsa concedida pelo Mackenzie.
Agora, além de alfabetizar, Edilena faz um estágio na escola municipal Celso Leite, localizada na Bela Vista. Ela acompanha um aluno especial matriculado em uma sala de aula regular, auxiliando-o no entendimento das lições e na execução das tarefas.
(Agosto/2007)